O governo federal anunciou o Plano Safra 2026/2027 como o maior da história, projetando R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial (sem o Pronaf). No entanto, um detalhado posicionamento oficial divulgado pela Aprosoja Brasil contesta o otimismo governamental. Segundo a entidade, o plano representa, na verdade, um retrocesso real de R$ 13,6 bilhões quando descontada a inflação acumulada de 4,4%.
Na avaliação da Aprosoja, o grande nó do novo ciclo está na tesoura aplicada na principal linha de sobrevivência de quem planta. Os recursos destinados a custeio e comercialização desabaram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões — um corte seco de R$ 29,8 bilhões no dinheiro usado para o giro da safra. A associação pontua que o crescimento global do anúncio só aconteceu porque o governo inflou a linha de investimentos para R$ 140,2 bilhões.
"O governo reduziu juros em algumas linhas, mas diminuiu o volume destinado ao giro da safra. O resultado é um crédito com custo menor em parte das operações, mas com menos recurso disponível justamente para plantar e conduzir a produção", critica Lucas Costa Beber, presidente unificado da Aprosoja Brasil e da Aprosoja MT.
A armadilha do crédito de mercado
O esvaziamento das linhas tradicionais e controladas — que possuem taxas subsidiadas e alinhadas à política agrícola — é um dos pontos de maior preocupação relatados pela Aprosoja. Dados de execução compilados pela entidade revelam que, retirando a Cédula de Produto Rural (CPR), a retração nas linhas oficiais foi de 14%.
Paralelamente, a CPR disparou e passou a abocanhar 42,8% de todo o financiamento agropecuário do país.
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Para a diretoria da Aprosoja, essa migração forçada para os recursos livres de mercado acende um alerta vermelho. A entidade argumenta que, fora do guarda-chuva do governo, o agricultor fica refém de juros flutuantes, exigências bancárias abusivas e garantias pesadas, elevando o risco de insolvência. Nos programas estratégicos de modernização, como o Moderfrota e o RenovAgro, a associação identificou uma queda de 28,1% na contratação.
Endividamento recorde na visão dos produtores
A Aprosoja alerta que o encolhimento do crédito oficial ocorre no pior momento possível. O agronegócio enfrenta uma crise de liquidez silenciosa provocada pelo tombo nos preços das commodities — a saca de soja, que passava de R$ 180 em 2022, hoje gravita na casa dos R$ 115 —, somada ao custo de produção que praticamente dobrou nos últimos seis anos.
O cenário é considerado crítico pela entidade no Mato Grosso, epicentro produtor do país que lidera os pedidos de recuperações judiciais, e no Rio Grande do Sul, castigado por quebras climáticas sucessivas. O posicionamento da associação destaca os dados do Banco Central, que mostram a inadimplência rural atingindo a marca de 7,4% a 7,6% para pessoas físicas, além de um montante de "crédito problemático" que já superou os R$ 186 bilhões.
O posicionamento contra a Resolução 5.314
Outro alvo de fortes críticas no manifesto da Aprosoja é a recente Resolução CMN nº 5.314/2026. A entidade aponta que a nova regra jogou contra o setor ao transferir para as instituições financeiras a "conveniência e decisão" de conceder ou não o alongamento das dívidas.
Como o mecanismo de prorrogação de parcelas tornou-se discricionário bem no momento de maior aperto, a Aprosoja defende de forma técnica e institucional que o Congresso aprove o texto do PL 5122/2023. A proposta cria uma linha especial de socorro financeiro utilizando recursos do Fundo Social do Pré-Sal, oferecendo juros compatíveis, carência e cobertura ampla para proteger a sustentabilidade do produtor na ponta.
O peso do alerta institucional
O duro posicionamento da Aprosoja expõe uma fratura exposta no modelo de financiamento do agro brasileiro. Apresentar números de meio trilhão de reais serve para manchetes políticas, mas esconde o estrangulamento do produtor na ponta, como bem sinaliza a entidade. Com o custeio podado em quase R$ 30 bilhões e bancos endurecendo as renegociações via Resolução 5.314, o risco de uma paralisia tecnológica na safra 2026/2027 é real. O agricultor precisará recalcular as contas: o mercado de insumos deve registrar forte desaceleração nos próximos meses, e a inadimplência dentro da porteira tende a transbordar para as revendas e cooperativas.
