O Instituto Agronômico (IAC) obteve a patente de uma tecnologia biotecnológica capaz de aumentar a produção de biomassa da cana-de-açúcar e melhorar sua conversão em biocombustíveis avançados. A conquista ocorre no mês em que a instituição completa 139 anos de atuação na pesquisa agropecuária e reforça sua estratégia de transformar conhecimento científico em soluções para o setor produtivo.
A tecnologia patenteada, denominada “Cassete de superexpressão do gene SHINE para produção de plantas com aumento de biomassa e alteração da mesma, seus usos e métodos”, é resultado de aproximadamente 20 anos de pesquisas conduzidas pelo Laboratório de Biotecnologia da Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento de Cana do IAC, em Ribeirão Preto (SP).
Preços do etanol ainda recuam no mercado paulista, apesar da maior liquidez
Preços do etanol continuam em queda com oferta alta em SP
Mistura de 32% de etanol reduz importação de gasolina
Segundo a pesquisadora do IAC e inventora da patente, Silvana Aparecida Creste Dias de Souza, a inovação permite aumentar a quantidade de biomassa produzida pelas plantas e, ao mesmo tempo, torná-la mais acessível aos processos industriais de conversão.
“Essa combinação é particularmente interessante para a produção de etanol celulósico, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), bioquímicos e outros produtos da bioeconomia”, destaca Silvana.
Tecnologia reduz lignina e melhora aproveitamento da biomassa
A ferramenta utiliza a superexpressão do gene SHINE, responsável por regular processos relacionados ao crescimento vegetal e à composição da parede celular das plantas. Os estudos mostraram que a tecnologia promove aumento da biomassa, redução dos teores de lignina e maior eficiência da sacarificação, etapa fundamental para a conversão da biomassa em açúcares fermentáveis.
De acordo com a pesquisadora, a redução da lignina é um fator estratégico para a produção de etanol de segunda geração (2G), obtido a partir do aproveitamento do bagaço e da palha da cana-de-açúcar.
“Nosso objetivo foi desenvolver uma tecnologia capaz de atuar simultaneamente em dois gargalos importantes da produção de etanol de segunda geração: aumentar a disponibilidade de biomassa e melhorar sua conversão em açúcares fermentáveis. Os resultados demonstraram que o gene SHINE possui grande potencial para aplicações em culturas energéticas”, afirma Silvana.
Resultados de campo apontam ganhos de produtividade
Nos últimos anos, eventos transgênicos desenvolvidos com a tecnologia SHINE foram avaliados em campo em duas variedades de cana-de-açúcar desenvolvidas pelo próprio instituto: IACSP01-5503 e IACSP02-1064.
Os testes, realizados ao longo de dois ciclos agrícolas, apontaram ganhos consistentes na produção de biomassa seca por hectare, além de aumento na produção de açúcar por área cultivada.
Segundo o IAC, os resultados indicam que a tecnologia pode contribuir não apenas para ampliar a produção de etanol celulósico, mas também para elevar a produtividade agrícola e energética dos canaviais.
“Esses dados indicam que a tecnologia não apenas favorece o aproveitamento da biomassa para etanol celulósico, mas também pode contribuir para o aumento da produção de açúcar e de energia por unidade de área cultivada”, ressalta a pesquisadora.
Potencial para novas tecnologias no setor sucroenergético
Além das aplicações voltadas aos biocombustíveis, o instituto avalia que a ferramenta poderá ser incorporada futuramente a programas de melhoramento genético e engenharia de plantas, associando-se a características como resistência a pragas, tolerância a herbicidas e adaptação a condições climáticas adversas.
A patente também reforça o papel da pesquisa brasileira no desenvolvimento de tecnologias voltadas à bioeconomia e à redução das emissões de carbono, contribuindo para o avanço de uma matriz energética baseada em recursos renováveis.
Além de Silvana Creste, a equipe responsável pela invenção reúne os pesquisadores Alexandre Palma Boer Martins, Michael dos Santos Brito, Paula Macedo Nóbile e Natália Gonçalves Takahashi. O trabalho contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Siga o portal RuralNews nas redes sociais
Acompanhe as principais notícias do agro em tempo real.
