A área destinada ao cultivo de trigo no Rio Grande do Sul deve registrar forte retração na safra de inverno de 2026. Levantamento realizado pela Rede Técnica Cooperativa (RTC/CCGL) junto a 21 cooperativas agropecuárias, divulgado pela FecoAgro/RS, estima redução de 31,5% em comparação com o ciclo anterior, totalizando aproximadamente 790 mil hectares cultivados.
O resultado reforça uma tendência observada nos últimos anos. Considerando as quatro safras mais recentes, a área dedicada ao cereal no Estado foi reduzida pela metade, refletindo os desafios enfrentados pelos produtores diante de um cenário marcado por incertezas econômicas e climáticas.
Cultura estratégica para o sistema produtivo
Além de sua importância econômica dentro das propriedades rurais, o trigo também tem papel relevante no comércio exterior gaúcho. Nos últimos cinco anos, o Rio Grande do Sul produziu cerca de 18,4 milhões de toneladas do cereal, das quais aproximadamente 10,5 milhões de toneladas foram destinadas à exportação, o equivalente a cerca de 60% da produção estadual.
Segundo o presidente da FecoAgro/RS, Adriano Borghetti, a redução da área vai além de uma simples mudança de cultura e afeta diretamente a eficiência dos sistemas produtivos das propriedades.
“Isso nos preocupa muito, pois não estamos falando apenas da redução de uma cultura. O trigo exerce um papel estratégico dentro das propriedades, contribuindo para a diluição dos custos fixos anuais e para a rentabilidade do sistema inverno-verão. Quando a área diminui nesse ritmo, todo o sistema produtivo perde eficiência econômica”, afirma.
Clima e rentabilidade influenciam decisão dos produtores
De acordo com o gerente de Pesquisa e Tecnologia da RTC/CCGL, Geomar Corassa, a combinação entre riscos climáticos e baixa perspectiva de rentabilidade tem sido determinante para a redução do plantio nesta safra.
“O primeiro fator é a preocupação com o cenário climático. Existe uma expectativa de influência do El Niño, condição que historicamente reduz o potencial produtivo do trigo no Rio Grande do Sul. Em situações normais, isso levaria o produtor apenas a ajustar o manejo e otimizar custos”, explica.
Segundo Corassa, o cenário econômico agravou a situação e influenciou diretamente as decisões dos agricultores.
“Quando o risco climático se soma aos preços atuais do trigo e às margens apertadas, o produtor deixa de discutir apenas o nível de investimento na lavoura e passa a avaliar se vale a pena cultivar. Em muitas propriedades, a decisão não foi reduzir tecnologia, mas simplesmente não semear a cultura”, ressalta.
Setor defende fortalecimento do seguro rural
Diante do cenário, a FecoAgro/RS defende a adoção de medidas que aumentem a segurança do produtor e estimulem a permanência das culturas de inverno nas propriedades.
Entre as principais reivindicações está o fortalecimento do seguro rural, especialmente por meio da ampliação dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), considerado uma ferramenta importante para reduzir os custos de contratação das apólices.
“Acreditamos no potencial do trigo gaúcho e na importância dessa cultura para o Estado. No entanto, precisamos avançar em políticas de apoio à produção e à comercialização que tragam maior segurança para o produtor. Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes e severos, o acesso a um seguro agrícola eficiente é fundamental para reduzir riscos, preservar a capacidade de investimento das propriedades e dar maior previsibilidade à atividade”, conclui Borghetti.