Uma proposta dos Estados Unidos para aplicar uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros importados pode representar um dos maiores desafios recentes para o comércio exterior do Rio Grande do Sul. A avaliação consta em estudo elaborado pela Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), divulgado nesta semana.
Segundo o levantamento, 81,1% das exportações gaúchas destinadas ao mercado norte-americano estariam dentro do escopo da medida, percentual muito superior à média nacional. O impacto tarifário potencial sobre o estado foi estimado em US$ 334 milhões.
Rio Grande do Sul é o estado mais exposto
A análise mostra que, enquanto 43,7% das exportações brasileiras para os Estados Unidos seriam atingidas pela proposta — o equivalente a US$ 16,5 bilhões por ano —, a exposição do Rio Grande do Sul é significativamente maior.
Das exportações totais do estado para os EUA, avaliadas em US$ 1,34 bilhão, mais de quatro quintos estariam sujeitos à nova cobrança.
De acordo com a Farsul, a vulnerabilidade gaúcha está ligada à composição da pauta exportadora estadual, concentrada em produtos como madeira, fumo e itens florestais, segmentos que ficaram fora das listas de exclusão elaboradas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
Agro gaúcho pode perder competitividade
No agronegócio, o cenário é ainda mais preocupante. O estudo aponta que 74,9% das exportações agropecuárias gaúchas destinadas aos Estados Unidos estariam sujeitas à sobretaxa, atingindo um volume de US$ 575 milhões e gerando um impacto tarifário potencial de US$ 144 milhões.
Entre os produtos mais vulneráveis estão o fumo não manufaturado tipo Virgínia, com US$ 122 milhões exportados, a madeira serrada de Pinus, com US$ 81 milhões, os calçados de couro, com US$ 62 milhões, e o fumo tipo Burley, com US$ 49 milhões. Somados, apenas os dois tipos de fumo representam 31,4% de todo o agronegócio gaúcho incluído na proposta tarifária.
Diferença em relação ao restante do Brasil
A Farsul destaca que o Rio Grande do Sul possui uma situação distinta da observada em outras regiões do país.
Produtos importantes da pauta exportadora brasileira, como carne bovina fresca, café em grão, suco de laranja concentrado e fertilizantes, foram incluídos nas listas de exceção elaboradas pelos Estados Unidos, reduzindo a exposição nacional.
No entanto, esses itens não possuem participação relevante nas exportações gaúchas para o mercado norte-americano.
Como resultado, enquanto 56,3% das exportações brasileiras aos EUA estariam protegidas pelas exceções, no Rio Grande do Sul apenas 18,9% se encontram nessa condição.
Impacto depende do desfecho das negociações
Os US$ 334 milhões estimados não representam necessariamente uma perda direta para a economia gaúcha.
O efeito da sobretaxa pode ocorrer por diferentes caminhos, como redução das margens dos exportadores, queda no volume embarcado, perda de participação de mercado para concorrentes internacionais ou repasse parcial dos custos aos compradores americanos.
Ainda assim, a entidade avalia que a negociação sobre inclusões e exclusões de produtos será decisiva para reduzir os impactos econômicos.
Investigação vai além das tarifas
A proposta está vinculada a uma investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 do Trade Act de 1974.
Além das questões tarifárias, Washington avalia temas relacionados ao sistema de pagamentos instantâneos Pix, políticas comerciais preferenciais, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e medidas ligadas ao combate ao desmatamento.
Para a Farsul, a abrangência da investigação amplia as incertezas e pode resultar em medidas setoriais com efeitos relevantes sobre as exportações brasileiras.
Em 2025, o Rio Grande do Sul exportou US$ 1,65 bilhão para os Estados Unidos. Por isso, o resultado das negociações entre Brasília e Washington é considerado estratégico para a economia estadual e para diversos segmentos do agronegócio gaúcho.
Comentários
