Paraná reduz área de trigo em 35% mas segura produção no inverno

Boletim do Observatório de Indicadores da Sociedade Rural do Paraná (SRP) revela que alta na produtividade compensou o recuo na área plantada do cereal
Paraná reduz área de trigo em 35% mas segura produção no inverno
Investimento em tecnologia garante que lavouras de trigo no Paraná apresentem alto rendimento médio mesmo com a diminuição do espaço cultivado.
Foto do autor Jair Reinaldo
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O Paraná vem produzindo praticamente o mesmo volume de trigo utilizando uma área de cultivo cada vez menor. Em apenas dois anos, as projeções indicam que a área destinada ao cereal no estado cairá de 1,1 milhão para 722 mil hectares, o que representa um recuo expressivo de 35%. Apesar da redução, a colheita estimada para a safra 2025/26 deve alcançar 2,36 milhões de toneladas, volume muito próximo ao que foi registrado no ciclo 2023/24.

Essa manutenção do volume total é explicada pelo salto tecnológico que elevou os níveis de produtividade do trigo paranaense para patamares históricos. Os dados fazem parte do novo boletim do Observatório de Indicadores da Sociedade Rural do Paraná (SRP). Conforme o levantamento, a área de trigo encolheu 25% entre as safras 2023/24 e 2024/25, e deve recuar mais 13% no atual ciclo 2025/26. No mesmo intervalo, a produtividade média saltou de 2.139 quilos por hectare para o recorde de 3.476 quilos por hectare na safra anterior. Para a temporada atual, a estimativa está projetada em 3.272 quilos por hectare, número que ainda se mantém muito acima da média histórica.



Para a diretora de Inovação da SRP e coordenadora do Observatório de Indicadores, Tatiana Fiuza, os números sinalizam transformações na ocupação do solo paranaense durante a estação fria. "Os dados mostram que o produtor continua investindo em tecnologia e obtendo excelentes resultados dentro da porteira. O que observamos é uma reconfiguração da agricultura de inverno. O trigo permanece estratégico para o Paraná, mas a redução da área indica que o produtor avalia cada vez mais o retorno econômico das alternativas para essa janela", explica.

Margens financeiras negativas e busca por novas opções de cultivo

Mesmo com a alta na produtividade média, a rentabilidade atual é o principal entrave para a expansão do trigo. Em maio de 2026, o valor médio pago aos produtores paranaenses ficou em R$ 67,72 por saca, preço 15% inferior ao mesmo período do ano passado e 30% abaixo do pico registrado em 2022.

A análise regional do Observatório aponta margens apertadas e até negativas no estado. Em Londrina, o resultado bruto da atividade registra um déficit estimado em R$ 652,00 por hectare. Em Cascavel, a situação se repete com saldo negativo de R$ 118,00 por hectare. Para que o trigo conseguisse cobrir integralmente os custos, a terra e o capital empatado na atividade, a saca precisaria ser comercializada a R$ 103,75 em Londrina e a R$ 93,20 em Cascavel, valores distantes das referências de mercado vigentes.

O estudo indica que o cereal ainda cobre as despesas operacionais da lavoura, mas tem dificuldades de gerar retorno real sobre a estrutura de produção. Essa dinâmica acelerou a perda de espaço do Paraná na produção nacional de trigo. Na década de 1990, o estado respondia por mais de 70% do trigo nacional, fatia que recuou para cerca de 30% em 2024. Ainda assim, a cadeia tem força econômica: na safra 2023/24, o Valor Bruto da Produção (VBP) do trigo paranaense somou R$ 2,85 bilhões em 308 municípios, liderado pela região Sudoeste do estado, que gerou R$ 728 milhões.

Diante do aperto financeiro no trigo, os agricultores buscam alternativas mais rentáveis. O destaque do relatório é o avanço da canola, impulsionada pelo mercado de biocombustíveis. No Paraná, a área da cultura deve crescer de 2 mil hectares em 2025 para 4,3 mil hectares em 2026, com colheita estimada em 7,4 mil toneladas. "Culturas como a canola mostram que a agricultura de inverno está se tornando mais diversificada", conclui Tatiana.

Dependência externa e o desafio da rentabilidade

Além dos desafios da porteira para dentro, o mercado brasileiro segue fortemente dependente de compras no exterior. Com o consumo nacional consolidado em patamares estáveis de 11,8 milhões de toneladas por ano, a produção doméstica ainda não consegue atender à demanda do país.

Em 2024, o Brasil precisou importar quase 6,8 milhões de toneladas do cereal, o que equivale a 45% do suprimento nacional e se aproxima bastante de toda a produção brasileira daquele ano, que foi de 7,9 milhões de toneladas. Para completar o quadro de atenção, o estoque de passagem projetado para 2025 é de apenas 1,46 milhão de toneladas, um patamar historicamente baixo que deixa o mercado doméstico muito mais exposto a oscilações e eventuais quebras de safra na Argentina ou no próprio Brasil.

A análise final do Observatório da SRP aponta que o grande desafio para o trigo paranaense na atualidade não está na capacidade produtiva — uma vez que há tecnologia de ponta e conhecimento para obter novos recordes de rendimento —, mas sim na construção de uma equação econômica equilibrada. O foco agora é garantir uma remuneração que pague o esforço do agricultor e mantenha o trigo competitivo frente a outras opções em um cenário de inverno cada vez mais dinâmico.

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