O cultivo do Feijão-mungo-preto (Vigna mungo) — conhecido no mercado internacional como urad ou black matpe — registra uma forte expansão no Brasil em 2026. Impulsionada pela elevada demanda consumidora da Índia e pela conversão de áreas que antes cultivavam gergelim na segunda safra, a produção nacional pode mais do que dobrar este ano, saltando das 250 mil toneladas colhidas em 2025 para marcas próximas ou superiores a 500 mil toneladas.
O avanço coloca o país em posição de destaque no comércio global de pulses. Para o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (IBRAFE), Marcelo Eduardo Lüders, a oportunidade é sólida, mas exige que o crescimento da produção caminhando lado a lado com a estruturação das vendas no mercado externo.
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"A procura indiana é real e estrutural. É importante diferenciar: o Feijão-mungo-preto não é o feijão-preto consumido no Brasil, mas sim uma cultura voltada ao comércio internacional. O mercado existe e é excelente, e o nosso foco agora é garantir que o crescimento da área ocorra de forma organizada e respaldado por contratos de exportação", destaca Marcelo Eduardo Lüders, presidente do IBRAFE.
O salto das exportações e a posição estratégica do Brasil
A escalada da demanda indiana pelo grão brasileiro impressiona pelos números: em 2023, a Índia importou apenas 4,1 mil toneladas do produto vindo do Brasil. Em 2025, o volume disparou para mais de 237 mil toneladas. Para 2026, projeções de negociantes do mercado indiano indicam um crescimento de pelo menos 25%, o que deve elevar as compras da fibra brasileira para patamares próximos a 300 mil toneladas.
A favor do Brasil, o governo indiano prorrogou a importação livre de urad até 31 de março de 2027, garantindo previsibilidade comercial. Além disso, a janela de colheita brasileira ocorre em período complementar à produção local da Índia, transformando o país em um fornecedor estratégico e em alternativa direta a Mianmar, tradicional parceiro dos indianos.
Segundo a especialista Carla Borges, da NG Trade, a expansão do plantio no Brasil respondeu rapidamente às sinalizações de mercado no início da safra.
"A demanda por mungo-preto da Índia segue muito aquecida. Como não havia estoque remanescente do ano passado no Brasil e os preços do gergelim estavam em queda na época da decisão de plantio, produtores e exportadores direcionaram áreas para o mungo-preto, aproveitando a forte procura internacional", explica Carla Borges.
Panorama nos estados: expansão de área e janela de colheita
A expansão da cultura ocorre com força no Cerrado, principalmente em Tocantins e Mato Grosso, além de áreas em Goiás, Maranhão, Piauí, Bahia e São Paulo. O Instituto Agronômico (IAC) aponta o Feijão-mungo-preto como uma alternativa de alto valor para a segunda safra, sendo totalmente mecanizável e com potencial produtivo de até 2.000 kg/ha.
O mapeamento das principais regiões produtoras mostra a dimensão do cultivo em 2026:
Tocantins: Destaca-se por uma área irrigada de cerca de 90 mil hectares, com alto padrão de qualidade e colheita prevista para setembro. Nas áreas de sequeiro já colhidas, o aumento de área ajudou a compensar a menor produtividade causada pelo atraso na janela da soja.
Mato Grosso: Apresenta forte avanço com mais de 50 mil hectares no Vale do Araguaia, crescimento na região da BR-163 e cerca de 120 mil hectares projetados em Campo Novo do Parecis.
Por se tratar de uma cultura em rápida ascensão, as estimativas são acompanhadas de perto pelo setor privado, uma vez que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ainda não contabiliza o Feijão-mungo-preto em seus levantamentos oficiais.
Planejamento e contratos: a chave para consolidar o mercado
Com a safra nacional podendo atingir 500 mil toneladas e a demanda indiana estimada em cerca de 300 mil toneladas, as lideranças do setor ressaltam que o caminho para o sucesso da cultura passa pela formalização de contratos e garantias de qualidade na origem, já que o consumo interno brasileiro para esse tipo específico de grão ainda é pequeno.
O IBRAFE aponta que a consolidação do Brasil nesse mercado passa por quatro pilares essenciais: mapeamento preciso da área plantada, acompanhamento do mercado internacional, estabelecimento de um protocolo nacional de padronização de qualidade e priorização de vendas antecipadas.
"O Feijão-mungo-preto é uma cultura fantástica para exportação quando trabalhada com planejamento. A decisão mais eficiente para o produtor é realizar o plantio com comprador definido, especificações de qualidade acertadas e garantias comerciais. O mercado internacional está aberto para o Brasil, e a organização da cadeia produtiva é o que vai garantir a rentabilidade dessa oportunidade", conclui Marcelo Eduardo Lüders.
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