O mercado de trigo abriu o ciclo 2026/27 sob forte sinal de alerta, desenhando um cenário de oferta restrita tanto no cenário nacional quanto no front internacional. No Brasil, a combinação de desânimo dos produtores e ameaças climáticas deve resultar na menor safra dos últimos cinco anos, forçando o país a recorrer a volumes históricos de importação para abastecer a indústria moageira.
De acordo com o relatório de julho da StoneX, a produção nacional de trigo está projetada em apenas 6,4 milhões de toneladas. O principal motivo é o forte recuo de 16,6% na área plantada neste ano. Desestimulados pelos altos custos de produção e pelos preços baixos pagos pelo cereal nos últimos meses, os agricultores optaram por reduzir o investimento na cultura.
Para piorar o panorama, o desenvolvimento das lavouras corre sérios riscos climáticos. Os modelos meteorológicos confirmam a atuação do fenômeno El Niño, que deve trazer excesso de chuvas e alta umidade para a Região Sul entre os meses de setembro e novembro — justamente no período crítico de colheita e maturação do grão. O clima adverso tende a comprometer não apenas o volume, mas principalmente a qualidade do trigo brasileiro, transformando boa parte do potencial trigo-pão em trigo ração.
Com uma safra doméstica encolhida, o Brasil precisará intensificar as compras externas. A estimativa é que as importações quebrem recordes nos próximos meses, dependendo fortemente do abastecimento vindo da Argentina e de outros players do Mercosul.
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O aperto na oferta brasileira coincide com um momento de forte estresse produtivo no maior exportador global. Nos Estados Unidos, as lavouras de trigo de inverno (Hard Red Winter), cultivadas na região das Planícies, foram castigadas por uma estiagem severa e prolongada. O impacto foi tão agressivo que o país registra a menor produção dessa variedade específica desde 1965.
O cenário de quebra também se repete na Austrália, outro importante exportador mundial que sofre com os efeitos de seca induzidos pelo El Niño.
A volatilidade na Bolsa de Chicago só não atingiu patamares ainda mais extremos porque a região do Mar Negro atua como um amortecedor do mercado. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia conseguiram manter safras robustas e fluxos contínuos de exportação, o que impede um desabastecimento global imediato, mas mantém os preços internacionais altamente instáveis.
Para os moinhos brasileiros, o momento exige cautela e planejamento estratégico. Com o dólar volátil e a escassez de trigo de alta qualidade no mercado interno, garantir estoques e travar custos com antecedência será o diferencial para mitigar as margens apertadas do setor ao longo do segundo semestre.
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