A economia global e as cadeias de commodities entram na segunda metade de 2026 imersas em um ambiente de forte assimetria. Se por um lado a desescalada das tensões militares no Irã trouxe um alívio temporário aos preços do petróleo e permitiu a retomada gradual do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz, por outro, o agronegócio e o setor industrial continuam lidando com sequelas profundas. Fretes caros, custos de capital elevados e a ameaça iminente de um fenômeno climático potencialmente histórico marcam o período.
Os dados e projeções fazem parte da 36ª edição do relatório Perspectivas para Commodities, publicado pela equipe de Inteligência de Mercado da StoneX.
O fator macro e as pressões do crédito
A expectativa de investidores por uma postura mais flexível dos bancos centrais foi frustrada. Nos Estados Unidos, a troca de comando no Federal Reserve (Fed) não trouxe a guinada nos juros que o mercado esperava. Sob nova liderança, o comitê manteve as taxas inalteradas em junho e já sinaliza uma nova alta até o fim do ano, impulsionado pela resiliência da economia americana.
Como reflexo direto, o dollar index atingiu seu maior nível em mais de doze meses. Para os produtores da América do Sul, a combinação de moeda americana forte e crédito caro atua como uma prensa sobre as margens de lucro, limitando o espaço de recuperação dos preços internacionais.
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O clima extremamente forte no radar
Se a macroeconomia dita o ritmo financeiro, o clima assume o papel de protagonista produtivo no segundo semestre. O monitoramento do NOAA confirmou o estabelecimento do El Niño, com previsões de que a intensidade do fenômeno em 2026/27 seja historicamente forte, com 63% de chance de se posicionar entre os maiores eventos registrados desde 1950.
Os impactos geográficos serão marcadamente desiguais. Na América do Sul, o contraste climático deve se desenhar com excesso de chuvas na região Sul e seca severa combinada com altas temperaturas no Centro-Norte, justamente no período em que os produtores planejam e iniciam a implantação da safra de grãos 2026/27.
Enquanto isso, nos Estados Unidos e na Europa, o verão começou excepcionalmente quente no Hemisfério Norte, elevando os alertas para o desenvolvimento das lavouras. Na Ásia, especificamente na China e na Índia, há o risco de estiagens severas que podem comprometer safras locais de milho e trigo, forçando os gigantes asiáticos a recorrerem mais ao mercado internacional.
Panorama da soja com oferta no limite
O mercado da oleaginosa inicia o trimestre bem abastecido no curto prazo, após o encerramento da safra brasileira com o recorde histórico de 182,1 milhões de toneladas. No entanto, o foco total se volta agora para o enchimento de grãos nos EUA.
O produtor sul-americano começa o planejamento do novo ciclo sob a pressão de preços menos atrativos no mercado físico e custos operacionais que não regrediram na mesma proporção. Um ponto de atenção é o acordo comercial Xi-Trump. A China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas de soja americana anualmente, mas persistem dúvidas no mercado se a meta será integralmente cumprida.
Milho e a incógnita da demanda chinesa
Após um primeiro trimestre de preços sustentados pelo fechamento temporário de Ormuz e alta dos energéticos, o milho sofreu desvalorização em Chicago no segundo trimestre devido ao andamento favorável do plantio americano e safras cheias no Hemisfério Sul.
A StoneX alerta para um risco altista ainda não totalmente precificado. Caso o El Niño quebre a safra doméstica da China, o país — que já importou 39,4% a mais de milho até maio na comparação anual — pode retornar com força ao mercado, enxugando os estoques globais.
Trigo e a quebra histórica de safra
As perspectivas para o trigo desenham um balanço global consideravelmente mais ajustado para o ciclo 26/27. Nos EUA, a safra de trigo de inverno foi estimada como a menor desde 1965 devido a uma seca severa nas Planícies.
Na Argentina e no Brasil, os custos elevados dos fertilizantes e o desincentivo de preços provocaram recuos expressivos na área plantada. A produção brasileira deve ser a menor em cinco anos (6,4 milhões de toneladas), o que deve empurrar o país a patamares recordes de importação do cereal.
Fertilizantes e o cenário para os insumos
A aproximação das tratativas de paz no Oriente Médio e o anúncio do retorno das exportações de ureia pela China injetaram otimismo no mercado de insumos, gerando quedas acentuadas nos preços de nitrogenados nas últimas semanas.
No entanto, a StoneX ressalta que a normalização não será homogênea. O mercado de fosfatados (MAP e DAP) segue travado e com preços rígidos devido à escassez global de enxofre, matéria-prima essencial cujos gargalos industriais e logísticos ainda devem demorar meses para serem totalmente solucionados.
O terceiro trimestre exigirá do produtor e dos agentes do mercado financeiro uma gestão de risco cirúrgica. Embora os gargalos da guerra tenham dado uma trégua na logística e no petróleo, o cenário produtivo que se inicia está longe da normalidade. O dinheiro continua caro, o dólar está forte e as planilhas agrícolas estarão, mais do que nunca, dependentes dos mapas meteorológicos.
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