A indústria brasileira de café solúvel articulou uma defesa estratégica na capital americana para tentar barrar a proposta dos Estados Unidos de impor uma sobretaxa de 25% sobre o produto nacional. A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), com o apoio de consultorias internacionais, participou das audiências públicas do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
Durante as sessões em Washington, a entidade demonstrou que o insumo brasileiro é fundamental para diversos setores da economia dos EUA. O café solúvel importado atende desde a produção de bebidas prontas para o consumo (conhecidas como ready to drink) até as indústrias de panificação, confeitaria, laticínios e redes de alimentação institucional.
O mercado norte-americano de bebidas prontas projeta um crescimento anual de 5,6% até 2030, o que eleva a necessidade de um abastecimento estável e economicamente competitivo. Grandes companhias americanas de alimentos, que representam mais de 20% das vendas de café no varejo doméstico, dependem diretamente do fluxo de fornecimento brasileiro para manter suas operações e estratégias de preços.
Impacto logístico e inflação ao consumidor final nos EUA
O Brasil desempenha um papel indispensável na cadeia de suprimentos dos Estados Unidos. O país responde por 22% de todas as importações norte-americanas de café solúvel, movimentando um volume anual de 15.500 toneladas métricas, concentradas principalmente na forma de extratos a granel, concentrados e grânulos.
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De acordo com o diretor de Relações Institucionais da Abics, Fabio Sato, a dependência técnica e logística do mercado americano dificulta uma substituição rápida do fornecedor.
“O mercado de importação de café solúvel dos EUA é altamente concentrado. México e Brasil respondem por quase 60% do total das importações, sendo que os preços mexicanos são cerca de 1,5 vez mais altos que os brasileiros. Com a capacidade excedente limitada em outros países produtores, o mercado enfrentaria desabastecimento”, explica Sato.
Além disso, o impacto financeiro direto atingiria os consumidores americanos mais vulneráveis. Estimativas apontam que 11% da população local consome café solúvel diariamente devido ao baixo custo por xícara. A imposição de uma tarifa adicional baseada na Seção 301 da legislação americana provocaria um repasse imediato de custos, gerando pressão inflacionária nos alimentos.
Defesa unificada e ausência de contestações em Washington
A maior parte do valor econômico gerado por esse comércio fica dentro dos próprios Estados Unidos. O café solúvel brasileiro entra no país a granel e passa pelos processos de mistura, empacotamento, marketing e distribuição em solo americano. Uma taxação punitiva prejudicaria a competitividade das indústrias processadoras norte-americanas.
A estratégia de defesa na audiência contou com o apoio unificado de outras duas grandes forças do setor: o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e a par americana National Coffee Association (NCA).
Segundo José Pimenta, especialista em comércio internacional e relações governamentais, o posicionamento conjunto trouxe um sinalizador importante de mercado. As três manifestações alinharam os mesmos argumentos econômicos e nenhuma das entidades foi contestada pelos investigadores do governo americano durante os pronunciamentos.
Os representantes do setor aguardam agora a decisão do USTR sobre a lista final de exceções tarifárias, com a expectativa de que o café solúvel brasileiro consiga a isenção tributária para proteger a estabilidade financeira das indústrias e dos consumidores na América do Norte.
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