A consolidação da agroindústria de biocombustíveis no Centro-Oeste transformou os Grãos Secos de Destilaria (DDG - Distillers Dried Grans) em um dos coprodutos mais disputados e valiosos do agronegócio nacional. Gerado a partir do processamento do milho para a fabricação de etanol, o DDG deixou de ser visto como um simples resíduo industrial para se posicionar como um insumo de alto valor proteico e energético na nutrição animal, redesenhando a economia regional e fortalecendo a sustentabilidade de ponta a ponta na cadeia produtiva de Mato Grosso.
O avanço desse mercado acompanha diretamente a interiorização e a maturação das usinas de etanol no país. Atualmente, o setor consome cerca de 20 milhões de toneladas de milho por ano no Brasil para produzir aproximadamente 10 bilhões de litros de biocombustível — o equivalente a um quarto da produção nacional. Mato Grosso lidera este ecossistema de forma isolada: as indústrias instaladas no estado esmagam 13,5 milhões de toneladas de milho anualmente, gerando um volume físico de aproximadamente 3 milhões de toneladas de DDG para o abastecimento doméstico e internacional.
Abertura do mercado chinês e concorrência com o farelo de soja
A mudança de patamar comercial do DDG brasileiro ganhou tração internacional com marcos de abertura aduaneira. De acordo com o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Lucas Costa Beber, o livre trânsito para a exportação do coproduto em direção à China reposiciona o insumo no tabuleiro das grandes commodities de alimentação animal.
“O DDG vai ganhar espaço definitivo ao lado do farelo de soja. Existe uma discussão no mercado global sobre qual será o principal produto de valor agregado nesse cenário, e eu acredito que essa transição é inevitável devido aos diferenciais de sustentabilidade e custo-benefício comercial”, salienta Beber.
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O dirigente reforça que o balanço de carbono da produção mato-grossense confere vantagens competitivas globais ao insumo. O sistema de rotação e sucessão soja-milho registra um balanço positivo com sequestro médio de 1,9 tonelada de carbono por hectare, impulsionado pela fixação biológica de nitrogênio realizada pela soja, que beneficia o ciclo produtivo subsequente do milho. Essa pegada ambiental leve qualifica tanto o etanol quanto o DDG para atender às crescentes exigências globais de transição energética e descarbonização de cadeias de carnes (aves, suínos e bovinos).
Quebra de dependência das exportações in natura e retenção de margem
Para os produtores de grãos, a verticalização industrial promovida pelas usinas flex trouxe estabilidade comercial e atenuou a extrema dependência dos portos de escoamento. Na avaliação do conselheiro fiscal da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Luiz Otavio Tatim, a transformação local do cereal estabiliza os preços de balcão pagos ao agricultor e protege o mercado das oscilações severas de fretes.
“Em vez de exportarmos apenas a matéria-prima bruta, passamos a transformar o milho em combustível renovável e proteína animal dentro do próprio estado. Isso retém a margem financeira na origem, atrai investimentos privados e gera empregos qualificados no interior do país, reduzindo o tráfego de insumos por longas distâncias”, avalia Tatim.
A sinergia entre lavoura, bioenergia e pecuária cria um ecossistema mais resiliente e anticíclico. Ao fornecer uma fonte de proteína concentrada e barata para os confinamentos do Centro-Oeste, o DDG acelera o giro da pecuária de corte, permitindo que Mato Grosso atue simultaneamente como o maior produtor de grãos e um dos principais polos de carne bovina do mundo, de forma complementar e ambientalmente sustentável.
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