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Sem cadeia produtiva, abate de jumentos volta ao debate

Resposta oficial ao Congresso aponta que animais abatidos são, em sua maioria, descartados ou abandonados e não provenientes de sistemas organizados de criação

Sem cadeia produtiva, abate de jumentos volta ao debate
Documento do Mapa aponta fragilidades na origem e rastreabilidade dos jumentos destinados ao abate. Foto: Divulgação
Foto do autor Cássia Lombardi
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O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) reconheceu oficialmente que não existe no Brasil uma cadeia produtiva estruturada de jumentos destinada ao abate para exportação de peles ao mercado chinês. A informação consta em documento encaminhado ao deputado federal Bruno Ganem após questionamentos apresentados ao ministério em 2025 sobre a atividade e o comércio internacional de peles desses animais.

Segundo a resposta elaborada pela Secretaria de Defesa Agropecuária, o setor não apresenta características semelhantes às observadas em cadeias produtivas organizadas, como as de bovinos, aves e suínos. O documento destaca que os animais destinados ao abate são obtidos por meio do recolhimento de exemplares criados de forma dispersa em diferentes regiões do país.

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Animais são descritos como descartados ou abandonados

O próprio documento do Mapa reconhece que a maioria dos jumentos abatidos é formada por animais considerados de descarte. Conforme o texto, tratam-se principalmente de animais utilizados em atividades de trabalho que, ao final de sua vida produtiva, são abandonados ou deixam de ter valor comercial para seus proprietários.

A manifestação também aponta que os frigoríficos responsáveis pelo abate, localizados na Bahia, recebem esses animais sem informações completas sobre sua origem e sem garantias consideradas adequadas por especialistas em relação à rastreabilidade e à biossegurança.

De acordo com o médico-veterinário José Roberto Lima, muitos desses animais são reunidos em locais temporários antes do transporte aos frigoríficos para formar lotes de embarque. Segundo ele, em diversas situações os jumentos permanecem nesses pontos sem acesso adequado a água, alimentação ou assistência veterinária.

Rastreabilidade é apontada como desafio

Outro aspecto destacado pelo ministério é a fragilidade no controle da origem dos animais. O documento informa que a Guia de Trânsito Animal (GTA) utilizada no transporte nem sempre corresponde à origem real de todos os jumentos presentes nos carregamentos.

Na prática, as guias podem indicar apenas os locais onde os animais foram reunidos antes do transporte, e não necessariamente as propriedades ou regiões onde foram criados originalmente.

Pesquisadores alertam para modelo extrativista

A manifestação do Mapa reforça avaliações já realizadas por pesquisadores da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal de Alagoas, da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Federal do Paraná, além de entidades de proteção animal, que classificam a atividade como extrativista.

O principal destino das peles é a China, onde o colágeno extraído dos animais é utilizado na fabricação do ejiao, produto comercializado como suplemento tradicional. Especialistas destacam, entretanto, que não há comprovação científica robusta sobre os benefícios atribuídos ao produto.

Redução da população de jumentos preocupa especialistas

Dados reunidos a partir de informações do Mapa, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do sistemaAgrostatindicam uma forte redução da população de jumentos no país nas últimas décadas.

Segundo o levantamento citado no documento, o Brasil perdeu aproximadamente 94% de sua população de jumentos entre 1996 e 2025. Em termos práticos, de cada 100 animais existentes na década de 1990, apenas seis permanecem atualmente.

Para a pesquisadora Patricia Tatemoto, o reconhecimento oficial da inexistência de uma cadeia produtiva organizada enfraquece argumentos que defendem a atividade como uma produção pecuária sustentável.

Debate envolve bem-estar animal e imagem do país

O documento também menciona a baixa qualidade dos animais adquiridos para o abate, justamente por serem provenientes de descarte. Especialistas avaliam que a situação pode gerar impactos à imagem do Brasil em mercados internacionais, especialmente em temas relacionados ao bem-estar animal e à sustentabilidade.

A advogada Gislane Brandão afirma que a atividade evidencia a vulnerabilidade dos animais e a ausência de políticas públicas voltadas à proteção da espécie. Segundo ela, o modelo atual está baseado no aproveitamento de animais historicamente utilizados no trabalho rural e que hoje enfrentam abandono e riscos crescentes de maus-tratos.

O posicionamento oficial do Mapa deve ampliar as discussões sobre a continuidade da atividade no país e fortalecer propostas que defendem restrições ou a proibição definitiva do abate de jumentos para exportação de peles.

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Editor RuralNews
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