O agronegócio brasileiro consolidou uma posição histórica no mercado internacional de fibras. O Brasil ultrapassou os Estados Unidos e assumiu a liderança mundial das exportações de algodão em pluma. De acordo com dados consolidados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os embarques brasileiros atingiram o recorde de 3,22 milhões de toneladas na temporada 2025/26 (acumulado de agosto de 2025 a junho de 2026), restando ainda um mês para o encerramento oficial do ciclo oficial de contagem.
A arrancada exportadora é sustentada por safras consecutivas de grande escala. Em 2025, a produção nacional superou pela primeira vez a marca de 4 milhões de toneladas e, para a colheita atual, a estimativa aponta para um volume ainda maior, projetado em 4,06 milhões de toneladas de pluma.
No entanto, o sucesso em volume contrasta com o cenário de rentabilidade nas fazendas. O monitoramento diário realizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) alerta que o momento atual é de forte pressão sobre as cotações da commodity.
Oferta mundial alta derruba cotações em 2026
Pressionadas pelo excesso de oferta global e pelo avanço dos estoques internacionais, as médias reais do algodão comercializado no Brasil testaram pisos preocupantes. Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, os valores praticados no mercado físico recuaram para patamares muito próximos às mínimas históricas registradas durante a crise financeira global de 2008.
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Embora o primeiro semestre de 2026 tenha apresentado uma recuperação parcial e gradual das cotações, os valores seguem deprimidos. Em termos reais (valores deflacionados pelo IGP-DI), o preço atual da pluma corresponde a cerca da metade do poder de compra vigente em meados da década de 1990.
“Essa cotação reflete tanto o crescimento expressivo da oferta mundial quanto os ganhos acumulados de eficiência da produção ao longo das últimas décadas”, explica Lucilio Alves, pesquisador responsável pelo mercado de algodão no Cepea.
Da reestruturação técnica ao topo do mundo
A capacidade do produtor brasileiro de se manter competitivo mesmo com preços na metade do valor histórico decorre de uma transformação estrutural iniciada no final dos anos 1990. Após uma crise aguda nas regiões tradicionais de cultivo, a cotonicultura migrou para o Centro-Oeste e para o oeste da Bahia, adotando um modelo estritamente empresarial.
O setor organizou-se em grandes áreas integradas, com elevado grau de mecanização, uso intensivo de biotecnologia e profissionalização da gestão de risco. Esse ganho de escala mudou a geografia produtiva — concentrando o mercado em Mato Grosso, Bahia e Goiás — e permitiu que o país deixasse de ser um importador de fibra para ditar o ritmo do comércio global, acompanhado hoje de perto por praças de referência monitoradas pelo Cepea em seis estados.
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