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Protocolo ajuda a prever surtos sanitários na piscicultura

Ferramenta baseada em georreferenciamento aponta áreas com maior risco de contaminação e pode auxiliar no monitoramento sanitário da aquicultura

Protocolo ajuda a prever surtos sanitários na piscicultura
Pesquisa utilizou sistema de georreferenciamento para mapear o risco de transmissão de doenças entre viveiros de peixes. Foto: Jefferson Christofoletti
Foto do autor Cássia Lombardi
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Segundo pesquisa da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO), doenças de peixes podem ser transmitidas entre viveiros localizados em uma mesma bacia hidrográfica por meio da conectividade da água. A descoberta foi possível após a aplicação inédita no Brasil de um protocolo desenvolvido na Itália para monitoramento sanitário de animais aquáticos, que poderá auxiliar na prevenção e contenção de surtos em pisciculturas.

O estudo, publicado na revista Frontiers in Marine Science, é resultado de uma cooperação técnico-científica entre a Embrapa e o Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália. A pesquisa utilizou uma ferramenta baseada em Sistema de Informações Geográficas (SIG) para criar um modelo de alerta precoce capaz de identificar viveiros com risco alto, médio ou baixo de contaminação.

Mapeamento do risco sanitário

A metodologia foi adaptada à realidade brasileira para estudar o acantocéfalo, um dos principais parasitas que afetam o tambaqui.

“Escolhemos trabalhar com o acantocéfalo porque tínhamos muitos dados sobre essa doença no tambaqui (Colossoma macropomum) e também por ser a principal enfermidade que acomete a espécie. Além disso, em 2015, houve um surto em Rondônia e precisávamos obter mais informações sobre sua propagação”, explica a pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura, Patricia Oliveira Maciel.

De acordo com o geógrafo Rodrigo Macario, do IZSVe, o estudo demonstrou que a saúde dos animais aquáticos está diretamente relacionada às características do território onde a produção ocorre.

“Isso é particularmente relevante porque a saúde na aquicultura não depende apenas do que acontece dentro de uma única fazenda ou planta. Também está ligada ao território onde a produção está localizada, à rede hidrográfica, ao fluxo de água, à proximidade entre produtores, às características ambientais e à forma como o espaço de produção é organizado e utilizado”, esclarece.

Impactos econômicos da doença

O acantocéfalo possui um ciclo de transmissão ligado ao ambiente aquático e pode comprometer significativamente o desempenho produtivo dos peixes.

Segundo a geógrafa Marta Ummus, da Embrapa Amazônia Oriental, os prejuízos podem ser expressivos para os produtores.

“O impacto econômico da infecção é significativo. Estima-se que peixes parasitados deixem de ganhar até 20% do peso esperado em comparação com animais saudáveis, o que, em escala comercial, representa perda considerável de produtividade e elevação dos custos de produção”, destaca.

“Para um produtor da Amazônia, que já enfrenta desvantagens logísticas em relação a outras regiões do país, cada ponto percentual de perda faz diferença no orçamento”, acrescenta.

Sistema de alerta precoce

A validação do protocolo abre caminho para aplicações práticas na defesa sanitária da aquicultura. A ferramenta permite identificar rapidamente propriedades que podem estar expostas ao risco após a confirmação de um foco de doença.

“O raciocínio é o seguinte: uma vez confirmado um caso de determinada doença em uma propriedade aquícola, o protocolo SIG permite identificar imediatamente quais outras propriedades estão em risco — e em que grau — com base na conectividade hídrica”, ressalta Ummus.

Segundo a pesquisadora, a tecnologia pode auxiliar os serviços de defesa sanitária a direcionar ações de monitoramento e contenção para as áreas mais críticas, otimizando recursos e aumentando a eficiência das respostas.

Outro ponto destacado pela equipe é a necessidade de ampliar o controle sobre a movimentação de peixes vivos e da água utilizada no transporte, considerada uma das principais formas de disseminação de enfermidades na aquicultura.

Potencial para diferentes enfermidades

Embora o estudo tenha sido realizado com foco no acantocéfalo, os pesquisadores ressaltam que a metodologia pode ser aplicada a diversas doenças transmitidas pela água.

“Cada um exigirá ajustes nos parâmetros — tempo de sobrevivência no ambiente, período de incubação, dose infectante mínima —, mas a estrutura básica de análise espacial permanece a mesma”, explica Ummus.

Apesar dos avanços, os pesquisadores apontam desafios para a adoção da ferramenta em larga escala, como a dificuldade de acesso a dados sanitários georreferenciados e a informalidade existente em parte da produção aquícola.

“A aquicultura brasileira tem potencial para crescer de forma sustentável e competitiva, mas isso passa necessariamente pelo fortalecimento dos sistemas de vigilância sanitária. E, nesse campo, a inteligência geográfica pode ser uma aliada poderosa, desde que haja dados, política pública e vontade institucional para colocá-la em prática”, conclui Ummus.

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