O financiamento da agropecuária brasileira atravessa um período de severa restrição operacional. Após safras marcadas pela queda nas cotações de commodities, pela elevação nos custos dos insumos e por adversidades climáticas, o endividamento do setor atingiu patamares alarmantes. Estimativas do Banco Central apontam que mais de R$ 202 bilhões da carteira de crédito rural enquadram-se como ativos problemáticos — englobando dívidas vencidas, inadimplentes, prorrogadas ou em renegociação. Quando contabilizados os passivos junto ao mercado privado, o montante supera os R$ 250 bilhões.
A escalada no risco de crédito levou as instituições financeiras a aumentarem as exigências para a liberação de novos recursos, configurando um cenário de aperto de liquidez para a safra 2026/2027. Segundo o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), a conjuntura reflete o esforço de sustentação das propriedades rurais diante das perdas acumuladas.
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"O produtor não se endividou porque quis crescer demais. Ele se endividou tentando continuar produzindo", destaca Lupion.
Acordo por Medida Provisória viabiliza renegociação de dívidas
Diante do risco de inviabilizar o acesso do produtor ao crédito do novo Plano Safra, a FPA acelerou as negociações políticas para viabilizar a repactuação de débitos. Embora o Projeto de Lei 5.122/2023 tratasse do tema, o risco de veto integral motivou o alinhamento com o Governo Federal para a edição da Medida Provisória (MP) 1.376/2026.
De acordo com a vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS), o instrumento foi a alternativa concreta para assegurar liquidez imediata ao campo.
"A medida provisória resolve o problema imediato, porque, com o Plano Safra já vigente, muita gente não conseguiria participar, ter acesso ao crédito", afirma Tereza Cristina.
A parlamentar destaca ainda que a medida acolheu pontos centrais das demandas do setor, incluindo a possibilidade de renegociação de Cédulas de Produto Rural (CPRs) e a ampliação dos prazos de amortização.
Fundo garantidor, Open Finance do agro e capital estrangeiro
Além do socorro de curto prazo, a articulação parlamentar incorporou mecanismos direcionados à estabilidade financeira de longo prazo. O principal destaque da MP é a autorização para a União atuar como cotista em um novo fundo garantidor para a agropecuária, mecanismo que também poderá receber aportes de estados, municípios, produtores e bancos.
De acordo com o vice-presidente da FPA na Câmara, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), o instrumento cria uma proteção para o crédito em momentos de intempéries climáticas.
"Nós tínhamos alguns desafios e pontos que deveriam ser tratados na MP. Um deles é termos uma visão de futuro com o fundo garantidor que virá. É uma solução mais estruturante", avalia Jardim.
Paralelamente, a FPA prioriza o Projeto de Lei 3.123/2025, de autoria do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), que estabelece o Open Finance do agro. A proposta cria um sistema unificado e autorizado de compartilhamento de dados cadastrais e produtivos, permitindo análises de risco mais precisas pelas instituições financeiras.
De acordo com o deputado Alceu Moreira, a transparência de dados facilitará a concorrência no mercado financeiro.
"O resultado direto é a possibilidade de ofertar condições de crédito e seguro mais justas, competitivas e acessíveis, beneficiando diretamente o produtor rural", pontua Moreira.
Lei do Agro 3 projeta R$ 800 bilhões adicionais
No âmbito da modernização regulatória, a bancada ruralista finaliza as propostas da Lei do Agro 3, pacote que abrange 11 eixos temáticos com potencial para injetar até R$ 800 bilhões na oferta global de crédito. Entre os pilares está a ampliação do acesso ao capital estrangeiro, que opera a taxas de juros inferiores às praticadas no mercado doméstico.
As lideranças do setor ressaltam que o avanço das novas modalidades de financiamento precisa ser democratizado em todas as regiões produtoras, incluindo o Paraná e demais praças da Região Sul. Segundo o coordenador da Comissão de Infraestrutura e Logística da FPA, deputado Tião Medeiros (PP-PR), o desafio central é estender o benefício para além dos grandes grupos exportadores.
"Os grupos que exportam conseguem captar dinheiro lá fora, mas o grande volume de produtores, o produtor médio e pequeno, não sabe o que é isso e não tem nem acesso. A gente trabalhar para que esses produtores também possam se beneficiar é fundamental", reforça Medeiros.
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