A consolidação da demanda por biodiesel nos Estados Unidos alterou o protagonismo e a estrutura do esmagamento de soja no mercado norte-americano, de acordo com uma análise detalhada divulgada pela consultoria Hedgepoint Global Markets. O principal motor dessa transformação foi a confirmação, por parte do governo norte-americano em março de 2026, de um aumento de aproximadamente 61% no volume obrigatório de biodiesel a ser misturado ao diesel fóssil. Esse mandato impulsionou a procura doméstica por óleo de soja, fortalecendo as margens financeiras da indústria e oferecendo um suporte fundamental às cotações globais da oleaginosa.
Essa movimentação regulatória começou a ganhar tração ainda em junho de 2025, momento em que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) apresentou uma proposta inicial que previa uma elevação de cerca de 67% na mistura obrigatória. Embora a definição final tenha ficado ligeiramente abaixo da meta original, o reajuste de 61% consolidou um avanço expressivo para o setor, elevando a necessidade de matérias-primas agrícolas destinadas à produção de energias renováveis.
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Luiz Fernando G. Roque, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets, destaca o impacto dessa medida no mercado interno: "O óleo de soja destaca-se como a principal matéria-prima para fabricação de biodiesel nos EUA. Ao final de março, o governo norte-americano definiu um aumento de aproximadamente 61% no volume, o que, embora tenha ficado um pouco abaixo da proposta, ainda assim resulta em um forte aumento", explica.
Óleo de soja lidera rentabilidade e eleva margem de esmagamento ao maior nível da história
A trajetória de valorização dos preços do óleo de soja iniciou-se durante as discussões da proposta da EPA e ganhou força adicional com o eclosão do conflito entre Estados Unidos e Irã. O agravamento geopolítico provocou uma forte alta nas cotações do petróleo — commodity que serve de referência global para o setor de energia —, o que acabou por chancelar o movimento de alta nos preços dos biocombustíveis e dos seus insumos agrícolas.
Com essa valorização contínua, a participação do óleo de soja na composição da margem dos esmagadores norte-americanos permaneceu em patamares elevados, superando com folga os índices registrados em temporadas anteriores. Atualmente, o derivado responde por cerca de 54% da margem do setor, o que demonstra que o óleo passou a ser o grande responsável pela rentabilidade das indústrias de processamento.
Esse cenário refletiu-se diretamente na margem de esmagamento "na tela" nos Estados Unidos — indicador financeiro calculado pela soma dos valores de venda do farelo e do óleo de soja subtraída do custo da matéria-prima (o grão de soja). Segundo a Hedgepoint, essa margem atingiu os maiores níveis já registrados na história do país. "Esse movimento é fundamental para entender e projetar o ritmo de esmagamento dos Estados Unidos, porque os esmagadores norte-americanos têm um grande incentivo para continuar ampliando os volumes diante de uma margem financeira extremamente favorável", ressalta Roque.
Expansão da capacidade fabril e projeções do USDA para a safra 2026/27
A resposta da indústria ao incentivo financeiro tem sido imediata, com os dados operacionais de esmagamento atingindo volumes recordes tanto nas métricas mensais quanto no acumulado do ano. Para suportar esse fluxo, a capacidade instalada de processamento nos Estados Unidos continua em ritmo acelerado de expansão, combinando o aumento da capacidade de plantas já existentes com a inauguração de novas unidades industriais.
Um exemplo desse avanço foi a recente entrada em operação de uma nova usina no estado de Illinois, considerado o principal produtor de soja do país, além de outros projetos fabris programados para iniciar atividades nos próximos meses.
Diante do avanço físico e estrutural das usinas, a Hedgepoint projeta que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) terá que reajustar suas estimativas oficiais no quadro de oferta e demanda do país. A projeção atual do órgão para a temporada 2026/27 aponta para um esmagamento de 74,8 milhões de toneladas de soja. No entanto, a análise da consultoria indica que esse número deverá ultrapassar a marca de 75 milhões de toneladas em breve, impulsionado pelo consumo recorde de óleo de soja. "A demanda por esmagamento e a demanda por biodiesel nos Estados Unidos são fatores importantes que devem ser monitorados com atenção, pois suas forças trazem, neste momento, suporte fundamental para o mercado da soja", conclui o analista da Hedgepoint.
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