As propostas de tarifas adicionais de 25% sugeridas pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros — incluindo biocombustíveis, açúcar e pescados — geraram preocupação inicial no mercado de commodities. Contudo, a União Nacional do Etanol de Milho (Unem) avalia que o impacto real sobre as exportações de etanol de milho do Brasil será bastante limitado.
O principal motivo é o desenho atual do fluxo comercial de exportação brasileiro. O mercado norte-americano, embora importante, já não detém o protagonismo absoluto na receita dos biocombustíveis do país:
Liderança Asiática: Em 2025, o principal destino do etanol de milho brasileiro foi a Coreia do Sul, que importou 780 milhões de litros, abocanhando expressivos 48,4% de toda a fatia exportada.
EUA em Segundo Plano: Os Estados Unidos ocuparam o segundo lugar, com a importação de 253 milhões de litros (15,7% do total). Essa movimentação já vinha em curva descendente, apresentando retração de 18,4% na comparação com o ano anterior.
A Unem esclarece ainda que a tarifa de 18% atualmente imposta pelo Brasil ao etanol norte-americano não se trata de uma retaliação bilateral, mas sim do cumprimento da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul. Como estratégia de crescimento, a entidade foca agora em expandir mercados, mirando sobretudo a Ásia.
Preços do etanol despencam com avanço da moagem em SP
Preço do etanol cai no primeiro trimestre da safra 2026/27
Paralelamente às pressões geopolíticas externas, o cenário interno brasileiro e global traz forças mistas de oferta e demanda que redesenham os preços físicos e futuros do milho e da soja neste meio de ano.
Demanda interna aquecida por biocombustível
Em uma importante medida para o setor de energia, o Conselho Nacional de Política Engenética (CNPE) aprovou o aumento temporário da mistura obrigatória de etanol na gasolina, passando de 30% para 32% por um período de 180 dias. A medida visa conter a volatilidade internacional de preços e deve poupar o país de importar cerca de 900 milhões de litros de gasolina anualmente. Com isso, espera-se uma aceleração imediata na moagem de cana-de-açúcar e, principalmente, no consumo de milho para fins de bioenergia.
Safrinha de milho com volume histórico e gargalos logísticos
Enquanto a primeira safra de milho já foi praticamente finalizada no país, a colheita da safrinha (segunda safra) atinge 38,9% da área cultivada nacional. No Mato Grosso, principal estado produtor, a colheita já alcançou 67,9% das lavouras, impulsionada por produtividades que superam 12.000 kg/ha em algumas áreas. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) revisou a safra total mato-grossense de milho para um recorde histórico de 57,06 milhões de toneladas (alta de 7% frente às projeções anteriores).
A abundância de grãos, contudo, esbarra no escoamento:
Saturação de Silos: O milho colhido rapidamente entra em disputa direta de espaço físico com os volumes de soja da safra recorde (estimada pela Conab em históricos 180,57 milhões de toneladas) que ainda se encontram retidos pelos agricultores.
Atrasos Climáticos: No Paraná e em Mato Grosso do Sul, a elevada umidade dos grãos e o escalonamento do plantio mantêm a colheita em ritmo lento (apenas 10% e 4% das áreas colhidas, respectivamente), prolongando o gargalo logístico.
Cenário de preços no balcão e bolsas
A ampla estimativa de oferta nacional e a melhora das lavouras americanas em Chicago (que subiram para 68% de condições boas a excelentes) atuam como fatores baixistas no mercado físico. As cotações registraram quedas semanais relevantes em praças importantes:
Mato Grosso: Rondonópolis liderou a retração no milho, com queda semanal de 3,61%, fechando em média a R$ 45,15/saca.
Mato Grosso do Sul: Maracaju registrou a maior queda na cotação do milho na semana, recuando 2,47%.
Goiás: Anápolis apresentou queda acentuada de 5,60%, enquanto as demais praças se mantiveram estáveis devido à retração dos produtores.
Apesar do viés baixista no curto prazo ditado pela oferta, a quebra histórica da safra de milho na União Europeia (onde a severa onda de calor limitou a estimativa de produção ao menor nível desde 2007) e o aumento da mistura de etanol no combustível brasileiro trazem suporte para que as cotações futuras de segundo semestre ensaiem reações, mantendo as cotações longas na B3 em terreno positivo.
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