Microrganismos podem recuperar áreas salinizadas

Pesquisa da Embrapa identificou arqueias extremófilas capazes de aumentar a tolerância do milho ao excesso de sal, abrindo caminho para o uso produtivo de áreas degradadas
Microrganismos podem recuperar áreas salinizadas
Pesquisa avaliou arqueias extremófilas na rizosfera do milho e identificou aumento da tolerância das plantas ao estresse salino. Foto: Clarice Rocha
Foto do autor Jair Reinaldo
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Uma pesquisa conduzida pela Embrapa em parceria com a Brandeis University identificou que arqueias extremófilas — grupo de microrganismos adaptados a ambientes severos — podem aumentar a tolerância do milho ao excesso de sal no solo e permitir o desenvolvimento mais vigoroso das plantas mesmo em condições de estresse salino. O estudo foi publicado na revista científica Environmental Microbiome e aponta potencial para o uso da tecnologia em áreas agrícolas degradadas pela salinização.

Os pesquisadores isolaram os microrganismos a partir das raízes da erva-sal (Atriplex nummularia), planta naturalmente adaptada a ambientes salinos e utilizada em processos de recuperação de solos. Depois do cultivo em laboratório, as arqueias foram aplicadas em plantas de milho cultivadas em ambiente controlado.



Os resultados mostraram que, sob condições de salinidade elevada, as plantas inoculadas apresentaram maior tolerância fisiológica, crescimento mais vigoroso e manutenção dos níveis de clorofila quando comparadas às plantas que não receberam os microrganismos. Também houve aumento da biomassa mesmo em solos com alta concentração de sais.

A pesquisa utilizou análises moleculares para confirmar que as arqueias conseguiram colonizar a rizosfera — região do solo próxima às raízes onde ocorrem intensas trocas biológicas e químicas. Segundo os pesquisadores, a presença desses microrganismos aumentou conforme os níveis de sal no solo ficaram mais elevados, demonstrando adaptação às condições adversas.

O sequenciamento genético identificou ainda genes ligados à produção de fitormônios e osmoprotetores, substâncias que auxiliam no equilíbrio hídrico das células vegetais em ambientes salinos. Esse mecanismo ajuda a reduzir os efeitos tóxicos do excesso de sal sobre o milho.

Potencial para recuperação de áreas degradadas

De acordo com o pesquisador Itamar Melo, da Embrapa Meio Ambiente, a salinização é um dos principais fatores que reduzem a capacidade produtiva de áreas agrícolas, especialmente em regiões semiáridas. Ele destaca que muitas culturas comerciais apresentam elevada sensibilidade ao acúmulo de sais no solo, o que compromete a produtividade e limita o aproveitamento dessas áreas.

Segundo o pesquisador, o uso de microrganismos adaptados naturalmente a ambientes salinos surge como alternativa para reduzir os impactos da salinidade e ampliar a viabilidade agrícola de áreas degradadas. A tecnologia pode beneficiar principalmente regiões irrigadas com água salobra e locais sujeitos a alta evaporação.

A pesquisa foi liderada pelo pesquisador João Paulo Ventura, que desenvolveu os experimentos e a análise dos dados durante o doutorado vinculado à Embrapa Meio Ambiente. Para ele, os resultados ampliam a compreensão científica sobre as arqueias e mostram que esses organismos podem deixar de ser apenas curiosidades da microbiologia para se tornarem ferramentas biotecnológicas aplicadas à agricultura sustentável.

Salinização preocupa agricultura mundial

O estudo também reforça a preocupação global com o avanço da salinização dos solos. Levantamentos da Embrapa indicam que o Brasil possui cerca de 16 milhões de hectares afetados por sais, sendo mais da metade localizada no Semiárido nordestino. Em muitas áreas irrigadas da região já há perdas de fertilidade e redução da produtividade em culturas como milho, feijão, algodão e sorgo.

No cenário internacional, relatórios da Food and Agriculture Organization apontam que mais de 1,3 bilhão de hectares no mundo apresentam algum grau de salinidade. O problema afeta especialmente áreas irrigadas, fundamentais para a produção de alimentos em regiões secas e semiáridas.

Além da redução da produtividade, a salinização representa risco para a segurança alimentar global. Estimativas da United Nations indicam que cerca de 1,5 bilhão de pessoas vivem em regiões onde o excesso de sal no solo ameaça a estabilidade da produção agrícola.

Aplicações práticas no campo

Os pesquisadores avaliam que os resultados já indicam potencial para testes em condições reais de produção agrícola. A expectativa é que bioinoculantes desenvolvidos a partir dessas arqueias possam futuramente ser aplicados em sementes ou diretamente no solo antes do plantio.

A proposta é integrar a tecnologia a práticas já utilizadas no manejo agrícola, como rotação de culturas, cultivo mínimo e uso de plantas adaptadas à salinidade. Com isso, culturas como milho, feijão e hortaliças poderiam manter maior desempenho produtivo mesmo em áreas afetadas pelo excesso de sais.

A expectativa dos pesquisadores é que o avanço dessas soluções contribua para ampliar a resiliência dos sistemas agrícolas diante das mudanças climáticas, fortalecer a segurança alimentar e abrir novas oportunidades produtivas em regiões hoje consideradas de baixa aptidão agrícola.

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