A elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% (E30) para 32% (E32) deverá acrescentar cerca de 954 milhões de litros à demanda anual pelo biocombustível no Brasil, segundo estimativa do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A medida foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) na última terça-feira (14), com vigência prevista a partir de 1º de agosto e duração inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada por igual período.
A decisão estratégica ocorre em um cenário de volatilidade dos preços do petróleo no mercado internacional e de preocupação com os impactos das tensões no Oriente Médio sobre o abastecimento. Para o ano de 2026, considerando a adoção da mistura a partir de agosto, o Imea projeta um incremento de aproximadamente 409 mil metros cúbicos de etanol anidro até o encerramento de dezembro.
“Em um ciclo completo, o E32 representa uma demanda adicional próxima de 1 milhão de metros cúbicos de etanol anidro. Neste ano, como a mudança começa em agosto, projetamos um acréscimo de cerca de 409 mil metros cúbicos. Esse resultado, no entanto, está diretamente relacionado ao comportamento do consumo de gasolina”, explica Rodrigo Silva, coordenador de Inteligência de Mercado do Imea.
Estimativas técnicas indicam que o E32 poderá reduzir em cerca de 900 milhões de litros por ano a necessidade brasileira de importação de gasolina. Antes da oficialização, a nova mistura passou por rigorosos estudos técnicos que avaliaram o desempenho dos veículos, a dirigibilidade, a partida a frio, o consumo e as emissões de poluentes.
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Para Cleiton Gauer, superintendente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), a importância da medida transcende o consumo imediato. Segundo ele, a ampliação da mistura traz a segurança necessária para produtores e indústrias, além de mitigar a exposição do país às oscilações dos combustíveis fósseis globais.
“Esse é um anúncio extremamente importante e aguardado pelo mercado. O aumento da mistura dá maior segurança para a produção e para a continuidade desse movimento de ampliação da oferta de etanol, não apenas em Mato Grosso, mas no Brasil. O Brasil ainda está exposto às oscilações do mercado internacional dos combustíveis fósseis. Ampliar o espaço para o etanol fortalece uma produção nacional e ajuda a dar sustentabilidade aos investimentos realizados na cadeia”, afirma Gauer.
Em um exercício de projeção, caso a participação do etanol de milho atinja 30% do atendimento deste novo mercado, o segmento poderia absorver cerca de 119 mil metros cúbicos adicionais em 2026 e aproximadamente 277 mil metros cúbicos em um ciclo de 12 meses.
Mato Grosso consolida liderança na produção de etanol de milho
A elevação do teor de mistura ocorre em um momento de franca expansão industrial em Mato Grosso, que encerrou a safra 2025/26 com uma produção de 7,27 milhões de metros cúbicos de etanol, um crescimento de 8,52% frente ao ciclo anterior. O estado mantém a segunda posição no ranking nacional, sendo o milho a matéria-prima de cerca de 85% dessa produção.
Para a safra 2026/27, o Imea projeta um salto de 16,08% na produção total de etanol no estado, atingindo 8,44 milhões de metros cúbicos. O etanol de milho deve liderar essa expansão, com estimativa de 7,33 milhões de metros cúbicos — um crescimento de 18,67% — impulsionado pela entrada em operação de novas unidades industriais.
“Quando há um mercado estruturado, com demanda e preço, o produtor responde. A indústria cria um destino adicional para o milho e gera um efeito em cascata ao longo da cadeia”, destaca Cleiton Gauer. Para o futuro, o superintendente da Famato vislumbra horizontes ainda mais amplos: “Precisamos olhar também para frente. O etanol e outras matérias-primas que o Brasil já produz podem ter participação importante na descarbonização marítima e na aviação, com o SAF (combustível sustentável de aviação).”
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