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Endividamento rural pressiona produtores no Rio Grande do Sul

Foto do autor Jair Reinaldo
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Endividamento rural pressiona produtores no Rio Grande do Sul
Produtores rurais do Rio Grande do Sul relatam dificuldades para manter a atividade diante do avanço do endividamento no campo Foto: FPA / Divulgação

Agricultores relatam perdas seguidas por seca e enchentes, venda de patrimônio e dificuldade para manter a produção diante dos altos juros e da queda na rentabilidade

O avanço do endividamento rural no Rio Grande do Sul tem levado produtores a vender patrimônio, renegociar financiamentos e buscar alternativas para manter as atividades no campo. Em meio a sucessivas perdas climáticas, juros elevados e queda na rentabilidade das lavouras, agricultores veem no Projeto de Lei 5.122/2023 uma possibilidade de reorganizar as dívidas e recuperar o fôlego financeiro.

Na cidade de Pedras Altas, no sul gaúcho, a produtora de soja Carla Krame afirma que a situação da propriedade se agravou desde a safra 2022/2023. Segundo ela, a combinação entre estiagens, enchentes, juros altos e preços baixos da soja comprometeu completamente a capacidade de pagamento da família.

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“São vários fatores que vieram juntos. Se fosse só um, talvez a gente conseguisse dar a volta. A gente sempre prezou por manter o nome limpo e pagar as contas, mas este ano não vamos conseguir”, relatou.

A propriedade registrou perdas severas nas últimas safras. Em 2022/2023, a produtividade ficou entre 10 e 12 sacas por hectare devido à estiagem prolongada. Na melhor temporada recente, em 2024/2025, a média chegou a 40 sacas por hectare, mas o resultado foi utilizado para cobrir dívidas acumuladas dos anos anteriores.

Neste ciclo, a expectativa voltou a frustrar os produtores. Segundo Carla, a colheita deve encerrar próxima de 25 sacas por hectare, abaixo do necessário para cobrir os custos de produção, estimados em cerca de 30 sacas por hectare.

“É uma situação desesperadora. Meu marido e eu estamos na casa dos 50 anos e nunca passamos por algo assim”, afirmou.

Fluxo de caixa comprometido

Também produtora em Pedras Altas, Vanessa Kuntzer relata que a principal dificuldade atualmente é a falta de fluxo de caixa para cumprir os vencimentos concentrados entre 2026 e 2028.

“Conseguimos renegociar algumas dívidas, mas o fluxo de caixa está totalmente comprometido”, disse. Segundo ela, uma das saídas seria ampliar os prazos de pagamento para até dez anos.

A produtora afirma que muitos agricultores acabaram contratando novos financiamentos para quitar dívidas anteriores, diante das sucessivas safras frustradas. Ela também critica as condições de crédito oferecidas atualmente pelos bancos.

“Um banco ofereceu para o meu irmão um crédito pessoal com juros de 76% ao ano. Não tem como suportar isso”, afirmou.

Vanessa destaca ainda que o cenário de juros elevados impede investimentos considerados fundamentais para enfrentar os problemas climáticos, como sistemas de irrigação.

“A gente sabe da necessidade da irrigação e já temos projeto pronto. Mas, hoje, os juros inviabilizam qualquer investimento. Mesmo produzindo mais, não conseguimos gerar caixa suficiente para pagar todas as contas”, explicou.

Venda de patrimônio e diversificação

Sem conseguir equilibrar as contas apenas com a renda da soja, produtores passaram a vender patrimônio para tentar reduzir o endividamento. Carla e Vanessa afirmam que já venderam máquinas agrícolas e avaliam a venda de áreas da propriedade.

“Nós estamos tendo que vender nossas coisas. Mas chega um momento em que todo produtor está endividado. E aí, quem vai comprar?”, questionou Carla.

As famílias também buscaram reorganizar o modelo produtivo. Culturas como trigo, aveia, arroz e canola ganharam espaço nas propriedades, enquanto a pecuária passou a ser utilizada como alternativa de renda complementar.

“Depois da primeira seca, nós introduzimos a pecuária como uma espécie de seguro da propriedade”, explicou Vanessa.

Outra estratégia adotada pelos produtores foi ampliar negociações diretas com fornecedores e parceiros por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs), buscando reduzir a dependência de financiamentos bancários.

Projeto de lei é visto como esperança

Diante da crise, o Projeto de Lei 5.122/2023 passou a ser tratado pelos produtores como uma possível saída para reorganizar as dívidas do setor. A proposta prevê mecanismos de repactuação dos débitos rurais em condições mais acessíveis.

“Esse projeto é um alento. Tenho muita fé que isso vai avançar, porque não pode continuar desse jeito”, afirmou Carla.

O texto deve ser analisado nesta terça-feira (19) pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Depois, segue para votação no plenário da Casa e posteriormente retorna à Câmara dos Deputados. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) atua para que a proposta avance antes do lançamento do próximo Plano Safra.

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Editor RuralNews
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