O mercado global de grãos acendeu o sinal de alerta com o recrudescimento de tensões geopolíticas e adversidades climáticas simultâneas nas principais regiões produtoras de trigo do planeta. Levantamento e análise do boletim da TF Agroeconômica mostram que a conjunção de ataques militares no Mar Negro, o avanço da seca nos Estados Unidos e a redução da safra no Mercosul formaram uma tempestade perfeita sobre os custos do cereal.
Geopolítica no Mar Negro e paralisação de terminais
Paraná conclui plantio do trigo com lavouras em condição excelente
Plantio de trigo chega a 98,8% no Brasil e colheita avança em GO e MG
O principal gatilho de alta nas bolsas internacionais (Chicago e Euronext/Paris) foi a escalada sem precedentes das hostilidade na região do Mar Negro. Ataques de drones ucranianos atingiram diretamente infraestruturas estratégicas na Rússia, incluindo o terminal de exportação de grãos da Demetra em Taman e fábricas de processamento no Porto de Kerch.
Essas investidas paralisaram o escoamento de navios e travaram o trânsito pelo Estreito de Kerch — por onde passa um quarto de todas as cargas de exportação russas —, além de colocarem os portos ucranianos de Odessa e Chornomorsk sob permanente risco de contraofensivas. A desaceleração forçada das vendas russas e ucranianas retira milhões de toneladas de trigo do mercado internacional no exato momento da colheita do Hemisfério Norte.
Seca nos EUA e corte na produção do Mercosul
Ao nó logístico europeu soma-se o fator climático na América do Norte. O relatório do USDA indicou que a proporção de lavouras de trigo de primavera sob seca severa nos EUA saltou de 25% para 48%, com o estado de Dakota do Norte registrando quase 30% da sua área em estresse hídrico moderado a grave.
Na América do Sul, a perspectiva de oferta é igualmente restrita. O balanço consolidado de Oferta Demanda do Mercosul indica que o bloco terá 22,69% a menos de trigo disponível para o ciclo 2026/27. O Brasil, maior comprador da região, reduziu expressivamente sua área cultivada: o Paraná plantou 11% a menos (727,5 mil hectares) e o Rio Grande do Sul encolheu sua área em 29,2% (814,2 mil hectares). A produção somada dos dois maiores estados tritícolas do País deve cair 25,8%, totalizando apenas 4,71 milhões de toneladas.
Reflexos no Brasil: farinha e pão mais caros
A menor oferta no Sul forçará o Brasil a importar volumes expressivos para abastecer seus moinhos, mas a conta será alta. O trigo argentino nacionalizado via Paranaguá saltou para a casa dos US$ 310 por tonelada (alta de 6,16% na semana), impulsionado pela resistência de venda na origem.
No mercado doméstico, o efeito cascata já é visível. A saca do trigo ao produtor no Paraná ultrapassou a marca de R$ 70,00, enquanto em São Paulo os preços de balcão superam R$ 80,00. Moinhos no Paraná e em Santa Catarina relatam que trabalham com margens esmidas no processamento e já tentam reajustar em até 5% os preços das farinhas especiais e de panificação no atacado para repassar a alta da matéria-prima.
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