O mercado de café vive um momento de forte volatilidade e reconfiguração de expectativas no mercado físico e nas bolsas internacionais, avalia o relatório Radar Agro, elaborado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. O início do ciclo 2026/27 tem sido marcado pelo contraste entre a projeção de uma produção volumosa à frente e os gargalos imediatos de oferta provocados por problemas climáticos durante a colheita no Brasil.
Chuvas, atraso na colheita e o "efeito El Niño"
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Chuvas no fim da colheita afetam qualidade do café arábica
A colheita da safra 2026/27 começou em maio, mas enfrentou sérios obstáculos ao longo de junho. De acordo com os analistas do Itaú BBA, chuvas acima da média histórica nas principais praças de arábica — com destaque para o Sul de Minas Gerais, o Cerrado Mineiro e a Mogiana paulista — reduziram o ritmo das colheitadeiras e atrasaram os processos de secagem e beneficiamento. O excesso de umidade no campo também provocou a queda de frutos no chão, acendendo o alerta no mercado comprador quanto à disponibilidade de café de alta qualidade.
Em um cenário de estoques mundiais já apertados e postura defensiva dos cafeicultores, a incerteza quanto ao ritmo de chegada do "café novo" ao mercado provocou uma forte disparada nas bolsas internacionais. Na Bolsa de Nova York (ICE), a cotação do arábica para setembro/26 saltou 16% em um único pregão, alcançando os 350 cents/lb no início de julho. No mesmo período, o café robusta em Londres acompanhou o movimento e bateu US$ 4.064 por tonelada.
Somado aos gargalos da colheita atual, o relatório aponta que os investidores passaram a embutir um "prêmio de risco climático" para o ciclo seguinte. A perspectiva de consolidação de um El Niño de forte intensidade no último trimestre do ano eleva as incertezas sobre as temperaturas durante a florada e o pegamento da safra 2027/28.
Panorama nacional e o descolamento do arábica
No mercado interno, os preços pagos ao produtor também registraram valorização, embora em ritmo inferior ao observado nas bolsas externas, ressalta a Consultoria Agro do Itaú BBA. O café arábica físico acumula alta de 11% desde o início de junho, cotado a R$ 1.701 por saca na segunda metade de julho, enquanto o primeiro vencimento em Nova York avançou 21,5%. O conilon/robusta subiu 15% no físico nacional, alcançando R$ 1.182 por saca.
Esse descolamento entre as praças brasileiras e a tela nova-iorquina alargou o diferencial (basis) do arábica para a média de -79 cents/lb, patamar bem mais amplo que a média histórica dos últimos cinco anos (-40 cents/lb).
Em termos de volume, as projeções consolidadas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) trazidas no Radar Agro apontam que o Brasil colherá uma safra recorde de 71,9 milhões de sacas em 2026/27 (crescimento de 14,1% ano a ano). O impulso vem da bienalidade positiva e do clima favorável durante o desenvolvimento do arábica, estimado em 47,5 milhões de sacas (+25%). A produção de conilon/robusta é projetada em 24,4 milhões de sacas (-2,4%).
O avanço na colheita permitirá ao Brasil dar um salto de 29,6% nas exportações de café verde, somando 49,1 milhões de sacas enviadas ao exterior, além de recompor levemente os estoques finais internos para 4,4 milhões de sacas.
Balanço global e projeções do Radar Agro
No cenário mundial, os dados analisados pelo Itaú BBA indicam a recomposição da oferta global para o ciclo 2026/27:
Produção Mundial: estimada em 190 milhões de sacas, um crescimento de 6,1% frente à safra anterior (179 milhões de sacas).
Consumo Mundial: projetado em 180 milhões de sacas, avanço de 3,6% em relação ao ciclo passado (173 milhões de sacas).
Superávit Global: resultado em um saldo positivo de 9,9 milhões de sacas (alta de 83,3% em relação ao superávit de 5,4 milhões do ciclo anterior).
Estoque Final Mundial: subindo de 24 milhões para 26 milhões de sacas (+7,8%), elevando a relação estoque/consumo no mundo de 14% para 15%.
Produção no Brasil: salto de 63,0 milhões para 71,9 milhões de sacas, alta de 14,1% no período
Por conta desse maior volume físico projetado para os próximos meses, a curva futura de preços da commodity em Nova York se inclina para baixo nos contratos a partir de março de 2027, sinalizando estabilização e possíveis correções nas cotações em dólar à medida que o grão novo entre nos armazéns.
Estratégia de comercialização e poder de compra de insumos
Mesmo com o horizonte de maior oferta global, o Radar Agro do Itaú BBA destaca que a disparada recente dos preços abriu uma janela altamente atrativa para a gestão de riscos e comercialização. As margens de lucro para o cafeicultor seguem positivas e a relação de troca com fertilizantes permanece em patamares historicamente favoráveis — especialmente para a aquisição de Ureia e Cloreto de Potássio (KCl). No caso do Fosfato Monoamônico (MAP), os indicadores voltaram a se aproximar dos ótimos níveis observados em 2025.
Para garantir a rentabilidade da safra atual e se proteger contra eventuais quedas das bolsas com o avanço da colheita global, os especialistas da Consultoria Agro do Itaú BBA recomendam a utilização de instrumentos de proteção, como o NDF (Non-Deliverable Forward) de Café NY em BRL para vencimentos em setembro ou dezembro de 2027.
A operação permite ao produtor travar antecipadamente um patamar de preço por saca em reais aproveitando o carrego cambial positivo do dólar, sem a obrigação de entregar uma qualidade física específica de grão no contrato, garantindo a liberdade de negociar a produção física no mercado disponível mais próximo do encerramento da colheita.
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