Brasil exporta 38,5 mi de sacas de café e receita atinge US$ 14,6 bi

Receita cambial é a segunda maior da história, sustentada por preços recordes que compensaram os gargalos logísticos e o tarifaço norte-americano
Brasil exporta 38,5 mi de sacas de café e receita atinge US$ 14,6 bi
Preços recordes do grão garantiram faturamento histórico para o café brasileiro, mesmo diante de gargalos nos portos.
Foto do autor Cássia Lombardi
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O Brasil encerrou o ano-safra 2025/26 com a exportação de 38,462 milhões de sacas de 60 kg de café, volume que representa uma queda de 15,7% em comparação com o ciclo anterior (2024/25). Apesar do recuo na quantidade embarcada para 125 países, a receita cambial alcançou US$ 14,595 bilhões — uma leve redução de apenas 1%, consolidando-se como o segundo melhor desempenho de toda a série histórica nacional. Os dados foram divulgados pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

O preço médio das exportações atingiu a máxima histórica de US$ 379,48 por saca (alta de 17,4%), impulsionado pela forte valorização do grão no mercado internacional entre setembro de 2025 e janeiro de 2026. No primeiro semestre de 2026, os embarques somaram 17,831 milhões de sacas, com faturamento de US$ 6,534 bilhões.



Clima e gargalos portuários limitaram embarques na safra

De acordo com o presidente do conselho do Cecafé, Márcio Ferreira, o encolhimento no volume de exportações já era previsto pelo setor devido à combinação de estoques baixos e perdas produtivas:

"Após exportações recordes em 2024, os estoques brasileiros reduziram significativamente. Aliado a isso, a safra 2025 foi afetada por adversidades climáticas, o que diminuiu a oferta de café."

Ferreira aponta que a defasagem na infraestrutura portuária nacional agravou a situação, impedindo o escoamento de centenas de milhares de sacas e gerando prejuízos milionários com custos adicionais de armazenagem, pré-stacking e multas por atraso (detentions):

"Com infraestrutura defasada nos principais portos do Brasil, vimos pátios abarrotados e muitos atrasos na saída dos navios ao exterior, o que impossibilitou o embarque de centenas de milhares de sacas e gerou prejuízos milionários aos exportadores."

Além disso, a capitalização dos produtores permitiu que eles adotassem uma postura mais conservadora nas negociações durante a entressafra, retendo lotes à espera de melhores oportunidades de mercado, o que também reduziu o ritmo dos embarques.

O impacto do tarifaço dos EUA nas exportações brasileiras

Um dos principais fatores de pressão sobre o balanço da safra foi o imposto temporário de 50% aplicado pelos Estados Unidos aos cafés brasileiros por cerca de quatro meses (de 6 de agosto a 21 de novembro). Durante a vigência da medida protecionista, os embarques para o mercado norte-americano despencaram 54,9%, caindo de 2,917 milhões de sacas para 1,315 milhão de sacas em relação ao mesmo período de 2024.

Márcio Ferreira explica que, embora os negócios tenham começado a ser retomados após a queda da tarifa para a maioria dos cafés, o mercado norte-americano ainda opera sob cautela:

"Depois da retirada do tarifaço sobre a maioria dos cafés brasileiros, recordando que o solúvel segue taxado para ingressar no mercado americano, notou-se a retomada dos negócios entre os dois países, mas, até o momento, o ritmo mais normal dessas transações não foi alcançado em função da instabilidade e das incertezas relativas à política comercial dos EUA, como ainda aguardamos, hoje, o anúncio do resultado das investigações da Seção 301 do USTR."

Alemanha assume a liderança como principal destino

O impacto das barreiras tarifárias nos Estados Unidos provocou uma mudança histórica no topo do ranking de compradores do café brasileiro, posição que os norte-americanos ocupavam desde o ciclo 2009/10.

Alemanha: Assumiu a liderança global, importando 5,188 milhões de sacas (13,5% do total do Brasil), mesmo registrando queda de 20,6% ante a safra anterior.

Estados Unidos: Caíram para o segundo lugar, com 4,243 milhões de sacas (11% do total), recuo expressivo de 43,2%.

Itália: Terceira colocada, com 3,267 milhões de sacas (queda de 8,1%).

Bélgica: Quarta colocada, com 2,330 milhões de sacas (queda de 24,7%).

Japão: Quinto colocado, com 2,300 milhões de sacas (leve crescimento de 0,2%).

Desempenho por variedades e foco em cafés diferenciados

O café do tipo arábica continuou sendo o principal produto da pauta de exportações, somando 29,499 milhões de sacas enviadas ao exterior (76,7% de participação), apesar do recuo de 15,3% comparado ao ciclo anterior.

A variedade canéfora (conilon e robusta) registrou 5,031 milhões de sacas (13,1% do total), com redução de 23,5%. O segmento de café solúvel exportou 3,874 milhões de sacas (10,1%), enquanto o de café torrado e moído somou 56.860 sacas (0,1%).

Os cafés especiais ou com certificados de sustentabilidade representaram 19,2% do volume total exportado pelo país, totalizando 7,388 milhões de sacas. Devido ao alto valor agregado, esse nicho obteve um preço médio de US$ 427,70 por saca, gerando US$ 3,160 bilhões em receita cambial (21,7% do faturamento total da safra do país). A Alemanha liderou as compras desse segmento, seguida por EUA, Bélgica, Holanda e Itália.

Santos lidera escoamento mesmo com gargalos

O Porto de Santos (SP) seguiu como o principal canal de saída do café brasileiro, movimentando 28,859 milhões de sacas, o equivalente a 75% de toda a exportação nacional na temporada 2025/26. O complexo portuário do Rio de Janeiro ocupou a segunda posição, com 8,249 milhões de sacas (21,4%), seguido pelo Porto de Paranaguá (PR), com 377.914 sacas (1%).

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