As exportações brasileiras de café não torrado (café verde) registraram retração para os seus principais destinos globais durante o primeiro semestre de 2026, em comparação ao mesmo período de 2025. Segundo dados oficiais do Comex Stat, plataforma de estatísticas do comércio exterior brasileiro, o recuo mais expressivo ocorreu nas vendas para os Estados Unidos, que registraram queda de 36,6% em receita comercializada e de 36,2% em volume físico entre janeiro e junho de 2026.
No período, os embarques para o mercado norte-americano somaram 115,4 mil toneladas, gerando uma receita de US$ 760,9 milhões — valor substancialmente inferior aos US$ 1,2 bilhão (referentes a 181 mil toneladas) faturados nos primeiros seis meses do ano passado. Por outro lado, o café brasileiro permanece isento das tarifas de importação de 25% e 12,5% recentemente anunciadas pelo governo dos EUA para outros produtos do comércio global.
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Para a Europa, principal bloco comprador da cafeicultura nacional, a retração foi mais suave: a queda atingiu 9,8% em valor (US$ 3,7 bilhões) e 10,8% em volume (556,8 mil toneladas), contra US$ 4,1 bilhões e 623,9 mil toneladas registrados em igual intervalo de 2025. Diante desse movimento, a Alemanha superou os Estados Unidos em volume e assumiu a liderança individual nas compras, importando 127,3 mil toneladas (US$ 843,4 milhões) de café verde brasileiro no semestre.
Fatores de mercado: desestocagem, clima e volatilidade
Conforme analistas e representantes do setor de defensivos e nutrição agrícola, o recuo nas compras norte-americanas resultou de uma conjunção de fatores operacionais e climáticos. Após os altos volumes embarcados pelo Brasil em 2024 e 2025, as indústrias dos EUA formaram estoques de segurança elevados, entrando em um ciclo planejado de desestocagem no primeiro semestre de 2026.
Além disso, a menor disponibilidade do café arábica na safra 2025/2026 — decorrente dos episódios de seca prolongada e altas temperaturas nas principais regiões produtoras de Minas Gerais, São Paulo e do Paraná — reduziu a oferta exportável. O quadro foi agravado por movimentos especulativos na Bolsa de Nova York (ICE), que geraram volatilidade nas cotações internacionais e levaram importadores a adiar embarques na expectativa de preços mais baixos.
Segundo o head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion, o cenário exige uma leitura estrutural. "Os números mostram que a queda das exportações não é resultado de perda de competitividade do café brasileiro, mas de um ajuste global entre oferta, estoques e preços. Em um cenário de menor disponibilidade de arábica e maior volatilidade internacional, garantir produtividade, sanidade e regularidade da safra passa a ser um fator estratégico para sustentar a presença do Brasil nos principais mercados consumidores", afirma Centurion.
Perspectivas para o segundo semestre e recomendações ao produtor
A expectativa do comércio internacional para os próximos meses é de uma recuperação gradual das exportações do Brasil, atrelada à consolidação dos números da colheita da safra nova. Diante da baixa base de comparação deixada no primeiro semestre de 2026, a projeção aponta para uma retomada mais acelerada do ritmo de vendas direcionado aos Estados Unidos, enquanto a União Europeia tende a manter compras cadenciadas com base em contratos de longo prazo.
Diante do ambiente de variabilidade climática no campo, a recomendação técnica para o cafeicultor envolve o investimento em tecnologias de conservação do solo, eficiência pós-colheita, uso de irrigação e proteção fitossanitária.
"Em um cenário de maior variabilidade climática, produtividade deixa de depender apenas do potencial da lavoura e passa a ser resultado da qualidade do manejo. Investir em proteção fitossanitária, monitoramento, tecnologias e boas práticas agronômicas é fundamental para preservar o potencial produtivo, reduzir perdas e garantir uma oferta consistente ao mercado internacional", conclui Centurion.
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