A segunda etapa da Expedição Safra Goiás 2025/26 revelou um cenário mais desafiador para os produtores rurais do estado. Os dados apresentados nesta segunda-feira (22) apontam redução na produção de milho, reflexos do atraso no plantio, da irregularidade climática e do aumento dos custos de produção. Em contrapartida, culturas como sorgo e girassol ganham espaço nas propriedades como alternativas para diversificação e redução de riscos.
O levantamento foi realizado pelo Sistema Faeg, Senar Goiás e Ifag, com apoio de parceiros, e percorreu mais de 2,4 mil quilômetros em diferentes regiões do estado. Segundo Lucas Lopes, assessor técnico da Faeg e integrante da expedição, foram avaliadas áreas em 19 municípios, abrangendo cerca de 77% da segunda safra goiana.
Milho sente efeitos do atraso no plantio
Os dados mostram que o plantio da segunda safra ocorreu com atraso de até duas semanas em relação ao ciclo anterior. Aproximadamente 43% das áreas de milho foram semeadas fora da janela considerada ideal, comprometendo o potencial produtivo.
A estimativa preliminar aponta área cultivada de 1,75 milhão de hectares, redução de 3,85% frente à safra passada. A produtividade média deve ficar em 86,4 sacas por hectare, queda de 26,1%, enquanto a produção total está projetada em 9,03 milhões de toneladas, volume 28,9% inferior ao registrado no ciclo anterior.
Segundo o presidente do Ifag e vice-presidente administrativo da Faeg, Armando Rollemberg Neto, o setor enfrenta uma combinação de desafios climáticos e econômicos.
“Estamos vindo de uma safra recorde para uma safra com menor produtividade e menor produção. O desafio do setor é cada vez maior e, com as mudanças climáticas, isso vem aumentando”, afirmou.
Ele também destacou o impacto da alta dos insumos sobre os custos de produção. Segundo o dirigente, fertilizantes como o MAP registraram aumento de aproximadamente 25% entre janeiro e maio, enquanto os nitrogenados, como a ureia, tiveram alta próxima de 50%.
Sorgo amplia participação nas lavouras
Entre as culturas avaliadas, o sorgo foi o principal destaque positivo da expedição. A área cultivada cresceu 60% em relação à safra anterior, alcançando 631,1 mil hectares. Com isso, a produção está estimada em 2,01 milhões de toneladas.
De acordo com o analista de mercado do Ifag, Vilmar Eurípedes da Silva Júnior, o crescimento foi impulsionado principalmente pela expansão da área plantada.
“O sorgo vem ganhando muito espaço pelo avanço das exportações, pelo consumo interno e pelo uso crescente na produção de etanol e na nutrição animal. O aumento observado ocorreu muito mais pela expansão de área do que por ganho de produtividade”, explicou.
Girassol também avança, mas produtividade recua
O girassol segue se consolidando como opção de diversificação nas propriedades goianas. No entanto, o atraso no plantio afetou o desempenho da cultura. Cerca de metade das áreas foi implantada fora da janela ideal, resultando em queda na produtividade.
Segundo Vilmar, a média deve ficar entre 20 e 22 sacas por hectare, abaixo das aproximadamente 26 sacas registradas na safra passada. Com isso, mesmo com o aumento da área cultivada, a produção tende a ser menor.
Clima e javalis preocupam produtores
Durante as visitas a campo, as equipes também identificaram prejuízos causados por ataques de javalis em algumas propriedades. Em determinados casos, os danos chegaram a comprometer áreas inteiras de produção.
Além disso, o clima continua sendo motivo de atenção. Conforme o gerente do Cimehgo, André Amorim, eventos fora do padrão foram registrados em junho, incluindo chuvas e vendavais que provocaram tombamento de lavouras de milho em algumas regiões.
Sobre a próxima temporada, o especialista afirmou que ainda não é possível confirmar um evento intenso de El Niño, mas existe a expectativa de atraso no retorno das chuvas para a safra 2026/27.
Planejamento para a próxima safra
Diante do cenário, técnicos e produtores avaliam ajustes no sistema produtivo para reduzir riscos. Entre as estratégias discutidas estão a ampliação da área de milho na safra de verão e o fortalecimento de culturas mais resistentes ao estresse hídrico, como sorgo e girassol, na segunda safra.
Para Armando Rollemberg Neto, o momento exige planejamento, informação e acesso ao crédito rural. Segundo ele, os dados levantados pela Expedição Safra serão encaminhados ao poder público para contribuir na formulação de políticas voltadas ao fortalecimento da produção agrícola em Goiás.