A decisão da União Europeia de suspender as importações de carne bovina brasileira a partir de setembro tem gerado apreensão entre produtores e frigoríficos. Apesar disso, analistas avaliam que o impacto imediato sobre os preços da carne no mercado interno deve ser limitado, principalmente devido à participação relativamente pequena do bloco europeu nas exportações totais do Brasil.
Segundo Marcelo Penha, analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), a combinação entre a suspensão das compras europeias e uma possível redução da demanda chinesa pode aumentar a oferta de carne no mercado doméstico. Ainda assim, ele acredita que o cenário para os próximos meses é de estabilidade.
De acordo com o especialista, caso não sejam encontrados novos mercados para absorver parte dessa produção, a sobra interna poderia chegar a cerca de 10%. Mesmo assim, fatores ligados ao ciclo pecuário e à retenção de matrizes para produção de bezerros devem ajudar a equilibrar a oferta no curto prazo.
Exigências sanitárias e rastreabilidade
A restrição anunciada pela União Europeia está relacionada às exigências do bloco sobre rastreabilidade dos animais e controle do uso de antimicrobianos na pecuária. Os europeus defendem mecanismos que permitam acompanhar toda a trajetória dos bovinos, desde o nascimento até o abate, além de garantias sobre os insumos utilizados durante a criação.
Nos últimos anos, missões técnicas europeias visitaram propriedades rurais, frigoríficos e unidades de processamento brasileiras para avaliar o sistema de controle sanitário nacional. Como parte das recomendações ainda não foi totalmente implementada, o bloco decidiu interromper as compras de carne bovina brasileira.
Entre as preocupações europeias está o uso de antibióticos como promotores de crescimento, prática que pode favorecer o surgimento de bactérias resistentes aos medicamentos. Em resposta, produtores brasileiros vêm ampliando o uso de alternativas nutricionais, como taninos, derivados de leveduras e óleos essenciais.
Goiás está entre os estados mais afetados
A União Europeia ocupa posição relevante para a carne bovina produzida em Goiás, sendo o segundo principal destino dos cortes nobres exportados pelo estado. Além disso, os europeus costumam pagar valores superiores aos praticados em outros mercados.
Segundo Thiago Carvalho, coordenador de pecuária do Cepea/USP, países como a Itália chegam a pagar cerca de US$ 9 por quilo da carne brasileira, enquanto a média geral das exportações nacionais varia entre US$ 5,50 e US$ 6 por quilo.
Dados do Ifag mostram que, entre janeiro e abril de 2026, o Brasil exportou 34,4 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia. Goiás respondeu por 4,5 mil toneladas desse volume, o equivalente a aproximadamente 13% dos embarques destinados ao bloco.
Setor busca adequações para manter mercado
Para o presidente do Sindicato das Indústrias Frigoríficas de Carnes do Estado de Goiás (Sindicarne-GO), Leandro Stival, a medida preocupa porque produtores e indústrias investiram durante anos para atender aos rigorosos padrões exigidos pela União Europeia.
Enquanto isso, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) segue trabalhando em conjunto com o Ministério da Agricultura e Pecuária para desenvolver protocolos capazes de atender às novas exigências sanitárias e de rastreabilidade impostas pelo bloco europeu.
Segundo especialistas, ainda existe possibilidade de reversão da medida antes de setembro, desde que o Brasil consiga avançar nas adequações exigidas. Entre elas estão sistemas mais completos de rastreamento individual dos animais, informações detalhadas sobre o uso de antimicrobianos e garantias relacionadas à origem dos bovinos.
Caso a suspensão seja mantida, o setor estima perdas próximas de US$ 1 bilhão por ano, valor semelhante ao faturamento obtido com as exportações de carne bovina para a União Europeia em 2025. Mesmo diante desse cenário, a diversificação dos mercados compradores e a força das exportações brasileiras para mais de 170 países ajudam a reduzir os impactos imediatos sobre a cadeia produtiva.