Carrapato resistente impulsiona nova pesquisa no RS
Estudo no Rio Grande do Sul busca reduzir resistência aos carrapaticidas e controlar infestação nas pastagens
O avanço da resistência do carrapato bovino aos produtos químicos usados no campo tem levado pesquisadores do Rio Grande do Sul a buscar novas alternativas de controle do parasita. Uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF) aposta no uso de microrganismos aplicados diretamente nas pastagens para reduzir a infestação nos rebanhos.
O estudo surge em meio ao aumento dos casos de resistência aos carrapaticidas registrados nas propriedades gaúchas, cenário que vem sendo agravado pelas mudanças climáticas e pelos invernos menos rigorosos na região Sul.
Segundo a médica veterinária e coordenadora de Defesa Sanitária Animal da Emater/RS-Ascar, Thaís Michel, praticamente todas as propriedades já apresentam algum nível de resistência aos produtos químicos utilizados no combate ao carrapato bovino.
Ela explica que o uso repetido dos mesmos princípios ativos e aplicações feitas fora do período adequado aceleraram a seleção de parasitas resistentes nas propriedades rurais.
Clima e genética aumentam desafio
Além da resistência química, o clima passou a favorecer o desenvolvimento do carrapato bovino no Rio Grande do Sul. De acordo com os técnicos envolvidos no estudo, os períodos de frio intenso, que antes ajudavam a interromper naturalmente o ciclo do parasita durante o inverno, ficaram mais curtos nos últimos anos.
Com temperaturas mais elevadas e maior instabilidade climática, a sobrevivência do carrapato nas pastagens aumentou, ampliando a pressão sanitária sobre os rebanhos.
Outro fator apontado pelos pesquisadores é o perfil genético predominante no Estado. Raças taurinas, comuns na pecuária gaúcha, apresentam maior sensibilidade ao carrapato em comparação às raças zebuínas.
Como estratégia complementar, técnicos também orientam produtores sobre cruzamentos genéticos capazes de aumentar a resistência natural dos animais.
Controle nas pastagens
A principal aposta da pesquisa é atacar justamente a fase do ciclo em que o carrapato permanece no ambiente. Segundo o médico veterinário e pesquisador José Reck, o controle biológico utiliza fungos e bactérias encontrados no próprio solo para eliminar o parasita nas áreas de pastagem.
Após identificação em laboratório, os microrganismos são multiplicados e aplicados em formulação líquida nas propriedades.
O diferencial, segundo os pesquisadores, é que os organismos usados no controle biológico também evoluem ao longo do tempo, acompanhando as mudanças do carrapato, diferentemente dos produtos químicos tradicionais.
Os primeiros resultados observados nas propriedades acompanhadas pelo IPVDF já apontam redução da infestação nas áreas tratadas, embora os dados ainda estejam em fase de validação científica.
Tecnologia pode chegar ao campo nos próximos anos
A expectativa dos pesquisadores é que a tecnologia possa ser disponibilizada comercialmente nos próximos anos por meio de empresas do setor de bioinsumos.
Enquanto isso, técnicos seguem reforçando junto aos produtores a importância do manejo preventivo, do uso correto dos carrapaticidas e da redução do uso excessivo de produtos químicos.
