Celebrado neste dia 16 de julho, o Dia Mundial da Cobra levanta um alerta de utilidade pública e educação ambiental que ganha ainda mais relevância diante das recentes mudanças climáticas. De acordo com a professora Marcela Aldrovani, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca (Unifran), a possível intensificação do fenômeno El Niño pode alterar padrões de temperatura e chuva no Brasil, impactando diretamente o comportamento desses animais.
A especialista alerta que eventos climáticos extremos — como calor intenso, tempestades, enchentes ou estiagens prolongadas — modificam drasticamente a disponibilidade de abrigo, água e alimento para a fauna silvestre. Esse cenário força o deslocamento das serpentes, aumentando significativamente a probabilidade de encontros com humanos tanto em áreas rurais quanto urbanas.
Pesquisa, conservação e o papel do agronegócio
Em Goiânia (GO), o Centro de Estudos e Pesquisas Biológicas da PUC mantém um serpentário dedicado à extração de veneno para a produção de soro antiofídico, contando com equipe especializada e servindo como centro de instrução para estudantes de veterinária e zoologia. A relevância do tema é evidente em estados essencialmente agropecuários como Goiás, onde a coexistência entre trabalhadores do campo, animais domésticos e a fauna silvestre exige constante informação e treinamentos, inclusive com cursos promovidos pelo Ibama na capital.
Falar sobre o tema de forma preventiva é a melhor maneira de proteger a população, os rebanhos e cães de estimação, além de preservar as próprias serpentes.
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"O principal mito que ainda enfrentamos é a ideia de que toda cobra é perigosa, agressiva e deve ser morta quando aparece. Esse preconceito transforma um animal silvestre em inimigo antes mesmo de qualquer avaliação real de risco", explica Marcela Aldrovani.
A professora esclarece que, embora acidentes ofídicos exijam atendimento rápido, muitas espécies não representam risco grave às pessoas. Contudo, orienta que qualquer serpente deve ser tratada como potencialmente perigosa até uma avaliação especializada.
"Mesmo entre as espécies peçonhentas, o comportamento mais comum é tentar fugir. A maior parte dos acidentes acontece quando o animal é pisado, encurralado ou quando alguém tenta capturá-lo ou matá-lo", destaca a pesquisadora.
O que fazer ao encontrar uma serpente?
Caso se depare com uma cobra em casa, no quintal ou na propriedade rural, a recomendação é manter a calma e seguir protocolos de segurança técnica:
Mantenha distância: Não tente capturar, cutucar, empurrar ou matar o animal. Afaste imediatamente crianças, idosos e animais de estimação do local.
Isole o ambiente: Se for possível fazer de forma segura, feche as saídas do cômodo ou área onde o réptil se encontra para evitar que ele se esconda.
Acione socorro especializado: Entre em contato com o Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil, a Polícia Ambiental ou o órgão de controle de zoonoses do município.
Evite medidas caseiras: Nunca jogue veneno, água quente, fogo ou tente conter o animal com cabos de vassoura ou baldes. A maior parte das picadas ocorre quando as pessoas tentam resolver a situação por conta própria.
Primeiros socorros para pessoas e animais domésticos
Cães e gatos são curiosos e costumam ser picados ao tentar cheirar, latir ou brincar com serpentes. Em caso de suspeita de picada em pets, leve o animal imediatamente ao veterinário. Não faça torniquetes, não corte o local, não tente sugar o veneno nem aplique substâncias caseiras. Se puder tirar uma foto da serpente à distância para ajudar na identificação, isso facilitará a escolha do soro pelo profissional, mas nunca tente capturá-la.
Em acidentes com humanos, lave a região picada com água e sabão, mantenha a vítima deitada em repouso e transporte-a imediatamente para o serviço de saúde mais próximo. Procedimentos como fazer torniquetes, realizar cortes ou tentar sugar o veneno são contraindicados e agravam a lesão. O tratamento médico hospitalar avaliará a necessidade de aplicação do soro antiveneno específico.
Importância ecológica e médica das serpentes
As cobras desempenham papel ecológico vital na regulação das populações de anfíbios, lagartos, aves, peixes e roedores, atuando tanto como predadoras quanto como presas de mamíferos e aves de rapina. Essa dinâmica varia segundo cada bioma nacional, desde as espécies adaptadas aos campos secos do Cerrado, passando pelas florestas densas da Mata Atlântica, até os ambientes aquáticos e de transição (ecótonos), que funcionam como corredores biológicos cruciais para a conservação.
Além de sustentar as cadeias alimentares, as serpentes são fundamentais para a medicina moderna. Suas peçonhas contêm moléculas complexas de alto valor científico. Um dos principais exemplos globais é o captopril, medicamento amplamente utilizado no controle da hipertensão arterial, desenvolvido a partir do estudo de compostos do veneno da jararaca brasileira.
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